23 abril 2015

A Patagônia e a bodega dos dinossauros!


Quando chegamos à vinícola da Família Schroeder, que fica no Vale de San Patrício del Chañar, a 53 km da cidade de Neuquén, fiquei impressionada e maravilhada com a estrutura da bodega, preparada para receber muito bem os turistas e com um maravilhoso restaurante, com uma vista perfeita para os vinhedos. 

O mais interessante ainda estava por vir: ao iniciarmos a visitação nos deparamos com um enorme esqueleto de dinossauro encontrado ali no início da construção da vinícola e preservado com muito cuidado. Os visitantes têm informações a respeito do dinossauro (Panamericansaurus Schroederi), de 75 milhões de anos.     

Os ossos verdadeiros foram retirados e ali foram deixadas réplicas, mostrando como foram encontrados e há muitos painéis contando a história dessa descoberta. 


Neste dia degustamos 21 vinhos e toda a degustação e visita foi acompanhada pela Carolina, uma excelente anfitriã, que inclusive providenciou que a bandeira do Brasil estivesse hasteada em nossa homenagem, uma gentileza que me emocionou. 

Nossa degustação foi dividida por uvas: primeiro degustamos todos os sauvignon blanc, depois os chardonnay, pinot noir, malbec, merlot, cabernet sauvignon, alguns cortes de uvas tintas e finalizamos com espumantes extra brut, nature e um Asti para a sobremesa. Gostei muito dos vinhos sem passagem por madeira, com muita fruta presente, boa acidez e para mim com uma característica gastronômica muito clara. Tenho gostado muito desse tipo de vinho, mais puros, que mostram o quanto nosso paladar muda com o passar dos anos, com a experiência em degustações. Voltamos a gostar do que é mais simples.


Depois dessa degustação fomos para o restaurante Saurus, onde iniciamos com um mimo do chef Sebastian Grimaldi: torradinha integral com creme de truta e um toque de beterraba. A truta patagônica é um dos peixes mais saborosos que já comi. 

A Carolina fez questão que o chef nos oferecesse em pequenas porções um pouco de tudo que o cardápio do restaurante oferece. Para mostrar as entradas: lagostin defumado com creme azedo de abacate, terrine de coelho com pimentões assados, purê de damasco com aioli, polvo marinado, truta confitada com quinoa andina. Estava tudo perfeito, mas a terrine de coelho me conquistou.

Meu prato principal foi um raviolli de truta defumada, apesar de serem oferecidos vários pratos de carne, mas havia prometido que em Neuquén daria preferência sempre aos peixes. Estava perfeito, mas eu e meus colegas de viagem sempre trocávamos uma garfada do prato alheio, para degustarmos um pouco mais da culinária local. 

Na sobremesa novamente um mix de tudo para degustarmos todas as opções do cardápio. Enfim, uma visita imperdível para quem for à Patagônia conhecer seus vinhos. 

Tim-tim!







16 abril 2015

Espumante é coisa de mulherzinha!

Talvez por conta de sua profissão, Nelson mantinha anotações para quase tudo de sua vida particular. Se quisesse saber o nome de todas as suas namoradas – embora não fossem tantas – ou o nome de todos os aeroportos e rodoviárias que visitou bastava consultar seus rabiscos. Sim, embora contador experiente e habituado às planilhas no computador gostava mesmo era dos velhos cadernos de anotações.

Alguém tão metódico mantinha lista de preferências, mas também de abominações. Uma delas continha tudo aquilo que mais odiava em sua profissão, como trabalhar para algumas cooperativas. Sem nenhum motivo aparente, apenas porque detestava aquela fantasiosa organização, onde os menos privilegiados continuavam sem privilégios enquanto alguém colhia os frutos perpetuando-se no poder da associação. Viu muitos casos assim e passou a inventar desculpas para não ter uma cooperativa como novo cliente.

Também estava em sua lista de descrenças as reuniões no horário do almoço. Primeiro porque o tiravam de sua rotina com a família, do momento com os filhos e a esposa. Segundo, porque os clientes gostavam de marcar tais encontros em lugares que não privilegiavam o conforto, como as churrascarias. Vestir roupa social, às vezes terno e gravata, e ir a uma churrascaria conversar sobre negócios não era a mais confortável das atividades. Pior, quando o cliente resolvia pedir um vinho para impressionar o futuro contratado ou algum parceiro de negócios. Aí, o desconforto era elevado à máxima potência na visão de Nelson. 

O último almoço de negócios, marcado para uma churrascaria rodízio, deixou em Nelson a certeza de que esses eventos lhe trazem aborrecimentos antes, durante e depois de acontecerem. É uma daquelas situações que se perpetuam no tempo, com a contribuição generosa de seus clientes. 

A gravata estava um pouco apertada, talvez pelos cinco quilos que Nelson ganhara nas últimas férias com a família. A pressão sanguínea parecia estar lá em cima. A cabeça indicava que iria doer e mesmo com o ar condicionado funcionando bem, o suor escorria pelas costas. Já sem o paletó – que estava na cadeira ao lado coberto por uma toalha manchada que o garçom usou para protegê-lo – Nelson estava preocupado com sua aparência, porque em uma de suas listas estava a regra: “Não tirar o paletó se estiver transpirando muito. Manter a elegância”. Tarde demais!

O provável cliente era proprietário de algumas lojas que compram e vendem veículos usados. Sujeito grande e que falava muito alto, talvez para ser notado, talvez por necessidade de sempre se fazer ouvir durante as barulhentas feiras de automóveis. Nesse dia, porém, parece que queria ser notado pelos que estavam almoçando. 

− Garçom! Sua carta de vinhos! Disse, sem nenhuma delicadeza.

Nesse momento Nelson começou a imaginar o que viria em seguida. Naquele calor um espumante, um vinho branco ou rosé seriam as melhores pedidas, mas isso seria uma exceção, uma grande surpresa. Já estava imaginando: “se pedir um vinho branco vou sair daqui e fazer uma fezinha na loteria. É meu dia de sorte”. Mal pensou e já ouviu: 

− Esse aqui vai muito bem com churrasco. Tinto, 24 meses em barricas de carvalho americano e 14,5% de álcool. É o melhor vinho da carta e o mais caro também! Uma potência! 

Nelson ficou imaginando se seu futuro cliente teria escolhido o vinho porque já o conhecia, se pelo preço ou simplesmente porque era um tinto. Olhou para as mesas ao lado, um tanto aflito, para observar o comportamento das pessoas. Será que todas estavam bebendo tintos? Será que o calor estaria incomodando apenas a ele? Se for, talvez seja hora de ir ao médico, porque pode estar com algum distúrbio hormonal.  

Olhou para sua esquerda e viu uma mesa com duas moças e um rapaz. Aparentavam ter entre trinta e trinta e cinco anos. Estavam felizes e com roupas leves, condizentes com o ambiente e com o termômetro. Ainda quando observava o trio chegou o garçom com um balde de gelo e uma garrafa de espumante. Não deu para ver qual marca ou país, mas escutou o garçom dizendo: “É esse o brut que pediram?” 

− “Sim”, pensou Nelson, “era esse mesmo que eu queria pedir”. E, num raro rompante de sinceridade, virou-se para o cliente pronto para sugerir uma troca, um novo pedido. E começou: 

− Seu Carlos, veja aquela mesa do lado...

− Eu vi. Achei estranho. Aquele sujeito não deve mandar em casa. Espumante é coisa de mulherzinha!

Nelson ouviu atentamente a observação e não ousou discordar, enquanto outra gota de suor escorria pela coluna vertebral, chegando ao ponto do corpo onde a elegância já não fazia mais diferença. 

10 abril 2015

Brasileiro, vivo, maduro e elegante: Casa Valduga Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2004 #desapego


Temos em casa uma quantidade considerável de vinhos brasileiros antigos, devidamente climatizados, esperando para serem abertos agora em 2015, porque decidimos que esse será o ano do desapego!

Não faremos uma degustação de todos os rótulos no mesmo momento, porque queremos aproveitar o máximo de cada garrafa, especialmente os vários merlot da safra 2005.

Para começar abrimos esse cabernet sauvignon da Casa Valduga, de uma linha que já saiu do portfólio da vinícola e, acredito, seja agora representado pelo Villa Lobos, o vinho top de linha que elaboram com essa uva. 

Não tenho como precisar - por falta de informações - o tempo de passagem por barricas de carvalho, mas certamente o vinho estagiou por um período considerável, talvez por 12 meses e ficou, segundo o contra-rótulo, mais oito meses descansando nas caves da vinícola. Tem 14% de álcool. 

Abri o vinho com bastante cuidado, porque com 11 anos de idade a rolha poderia estar comprometida. Mas, não estava, embora já com 1/3 bem encharcada pelo vinho. Não decantamos, para aproveitar os vários momentos do vinho na taça. 

Servido, o vinho tem coloração púrpura, com reflexos granada. Aromas com boa fruta madura, menta e madeira discreta. Na boca tem bom corpo, com taninos finos, mas vivos, e grande acidez. Apresenta estrutura muito equilibrada (taninos + acidez + álcool), mas paladar maduro e com boas notas de evolução, lembrando compota, mel, musgo, terra úmida e algo animal. Complexo!

Final longo, repetindo tudo. Prazeroso, é um vinho que evoluiu bem nesses 11 anos e está bem vivo, agradável, elegante. Como disse, as notas de evolução estão presentes, mas sem deixar o vinho enjoativo ou cansativo. A estrutura me surpreendeu, mantendo a boa capacidade gastronômica.

Ótima experiência e digo que começamos bem nosso "ano do desapego".


Detalhes da compra:

Esse vinho não está mais no portfólio da vinícola e, evidentemente, não me lembro quanto paguei pela garrafa há alguns anos atrás. Mas, considerando que o Villa Lobos é o cabernet sauvignon top da vinícola, podemos arriscar um preço atualizado pouco acima dos R$100. 

Saúde a todos!


26 março 2015

Os vinhos da Patagônia pelas mãos de Marcelo Miras

Bruno Agostini, Marcelo Miras, eu e um dos filhos de Miras, que também trabalha no projeto familiar.

Na última coluna comecei a contar sobre nossa visita à Patagônia, para conhecer os vinhos argentinos do fim do mundo, que assim podem ser chamados não só pela distância considerável que precisamos percorrer para chegar a essa região, mas também porque suas condições climáticas severas nos dão essa sensação. 

Depois de conhecer a Humberto Canale e provar muitos de seus ótimos vinhos, fomos conhecer o projeto familiar do enólogo Marcelo Miras, principal responsável pelos vinhos da famosa Bodega del Fin del Mundo. E, como disse na coluna de domingo passado, fiquei encantada com sua proposta e principalmente com o resultado na taça.

Na conversa que tivemos ele disse que “não pratica enologia” em seus vinhos, não interfere, não usa maquiagem, para que seus vinhos se apresentem de “cara lavada”. Disse, com orgulho, que utiliza o conceito uva + homem = vinho! E, apesar de trabalhar na maior vinícola da Patagônia revela muita simplicidade ao falar de seus vinhos, que elabora com sua família e sem ajuda de nenhum empregado. Ele, sua mulher e um dos filhos nos receberam com muito carinho. São donos e funcionários do projeto. Não tem como não funcionar!

Ao se apresentar deixa claro que não pertence a uma geração de enólogos, mas a duas delas: “dos enólogos mais jovens eu sou o mais velho”. Experiente, mas inovador.  

Saí de lá ainda mais apaixonada pelo mundo do vinho argentino, especialmente por descobrir muitos deles com uma personalidade tão forte, capazes de acabar com aquela ideia simplista de que todos os vinhos são muito parecidos. 

O apaixonante vinho com Trousseau Nouveau, uva um tanto rara na América do Sul.

Basta um gole de algum dos vinhos de Marcelo Miras para percebermos sua identidade própria. Aliás, eles até possuem uma certa “padronização”, se podemos dizer assim, porque todos são elegantes e com acidez bem presente, feitos para acompanharem uma refeição e não somente servir de aperitivo. Dos brancos elaborados com semillon e chardonnay, o seu rosé de malbec, os excelentes tintos de pinot noir, malbec e cabernet franc, todos possuem essas características. 

Provamos 14 vinhos elaborados por sua família e todos são encantadores. São duas linhas, uma jovem, que busca a expressão mais franca das uvas utilizadas, e outra reserva, com passagem do vinho por barricas de carvalho.    

São vinhos sem disfarces, acompanhados de uma delicadeza intrigante. Para mim a frase que define melhor esse produtor é: a riqueza da simplicidade, que deixei escrita a ele com muito carinho. 

Ganhei uma garrafa de um de seus vinhos, o Trousseau Nouveau 2014, que provocou reações emocionadas quando foi degustado na ocasião. Essa uva é conhecida em Portugal como bastardo e na França como gros cabernet. Possui taninos impactantes e grande acidez, mas a degustação desse vinho em casa será um capítulo à parte, que farei questão de relatar por aqui.

Tim-tim!

Os excelentes Pinot Noir, Merlot e Malbec da linha Reserva.

Três ótimos vinhos da linha Joven: Merlot, Malbec e um Blend da safra 2014.

O vinho da esquerda, da linha Reserva, prova que a Cabernet Franc está se tornando uma uva imperdível na Argentina.



23 março 2015

Para acompanhar seu melhor churrasco: De Lucca Reserva Cabernet Sauvignon 2009 #CBE


O tema de março da nossa Confraria Brasileira de Enoblogs - CBE (que deveria ter sido publicado aqui no primeiro dia do mês) foi determinado pelo Victor Beltrami, do blog Balaio do Victor e foi bem interessante: "um vinho varietal tinto ou branco do Uruguai qualquer, menos Tannat."

Infelizmente não consegui encontrar um vinho tão interessante quanto o tema proposto, porque aqui em Uberlândia a oferta de vinhos uruguaios não é grande e o fato de excluir os Tannat já deixou tudo mais difícil. Então, apostei nesse Cabernet Sauvignon já com seis anos de idade, mas que no final das contas não se saiu tão mal. 

É elaborado pela Bodega De Lucca na região de El Colorado, departamento de Canelones. A vinícola tem capacidade para produção 500.000 litros anuais e cerca de 60 hectares de vinhedos próprios. O vinho é rotulado como VCP (Vino de Calidad Preferente), que indica uma produção dentro de certos parâmetros para a região, embora não signifique automaticamente tratar-se de um ótimo vinho. 

O enólogo Reinaldo De Lucca é representante da segunda geração da família a produzir vinhos no Uruguai. Sua origem é o Piemonte, de onde chegaram no início do século XX e estabeleceram os primeiros vinhedos na região. Aprimorou-se com graduações nas universidades de Montevidéu (Uruguai), Penn State University (EUA) e Montpellier (França). 

Esse Cabernet Sauvignon tem 13% de álcool. Na taça a coloração é rubi, com levíssima indicação de evolução nas bordas. Aromas intensos, com muita fruta vermelha, leve tostado, pimenta e algumas notas lembrando geleia, o que pode ser fruto de sua evolução na garrafa. 

Na boca tem bom corpo, taninos ainda rascantes e ótima acidez. Esperava um vinho já mais amaciado pelo tempo, mas ainda demonstra ter estrutura para guarda. Mas, a fruta muito madura e a geleia podem indicar que o vinho esteja, agora, num ponto de equilíbrio que não compense esperar mais para abri-lo. Sabe aquele vinho que pode perder muita fruta se você ficar esperando que seus taninos fiquem mais dóceis? Pois esse é um exemplo. Portanto, me parece estar ótimo para beber agora.

A passagem de 12 meses por barricas de carvalho contribuíram para uma boa complexidade. É um vinho de um estilo mais rústico, que gosto bastante, muito comum em vinhos uruguaios e que, obviamente, pedem um bom pedaço de carne vermelha para acompanhar, se possível os cortes sensacionais de nosso vizinho do sul. 


Detalhes da compra:

O vinho é importado pela Premium Wines, de Belo Horizonte. Não me lembro quanto paguei pela garrafa, pois já está na adega há algum tempo, mas foi algo em torno dos R$65. 

* Esse é o 103º vinho que comento para a CBE, primeira e única confraria virtual brasileira. 

Saúde a todos!     



19 março 2015

Visitando a Patagônia (e o brilho nos olhos)

A exuberante vista de um mirante patagônico.

Em nosso quarto dia de viagem saímos pela manhã de Buenos Aires com destino a Neuquén, na Patagônia. Confesso que de todo nosso roteiro este era o que mais fazia meus olhos brilharem. 

Sabia que ali encontraria vinhos diferentes daqueles que estou acostumada a experimentar no meu cotidiano. E foi assim que iniciei a viagem à Patagônia argentina, cheia de expectativas e com o propósito de ver o país muito além dos malbec, em busca de algo que me fascinasse. 

Iniciamos a viagem acompanhados pela Maria José, uma francesa que nos mostrou tudo sobre aquela pequena cidade onde o Rio Negro é o lugar preferido de seus habitantes, que usufruem não só de suas águas para a alimentação e agricultura, mas também como fonte de lazer. Por ali encontramos, além dos vinhedos, a cultura abundante de árvores frutíferas, principalmente peras e maçãs.  

O nosso anfitrião na Humberto Canale.

Nossa primeira visita foi à Humberto Canale, propriedade que desde 1909 dedica-se à elaboração de vinhos, mas também ao cultivo de frutas, sendo uma das pioneiras da região. Por lá fomos recebidos pelo Guillermo Barzi, seu diretor, que representa a quinta geração da família à frente do negócio. 

Ele nos levou a uma degustação com oito de seus rótulos: Humberto Canale Sauvignon Blanc 2014, vinho de boa acidez e bastante cítrico, com as uvas colhidas sempre na primeira semana de março. Os cachos para a versão 2015 desse vinho já estavam bem encaminhados durante nossa visita.

O ótimo riesling de vinhas velhas.

Para mim os vinhos de destaque nessa degustação foram, além desse sauvignon blanc, o La Morita Riesling, com uvas de vinhedos antigos, colhidas na primeira semana de abril. Bem doce no nariz, mas seco na boca e com acidez muito presente. Eu compraria muitas garrafas deste vinho. 

Interessante que a todo momento éramos informados sobre os ventos na região, sempre presentes, fortes e frios, fazendo com que as cascas das uvas fiquem mais grossas, beneficiando o resultado final na garrafa. 

Nesse mesmo dia o querido amigo Marcel Miwa agendou uma visita que acabou se transformando em uma grande surpresa da viagem. Fomos conhecer o vitivinicultor Marcelo Miras e as três horas livres em nossa agenda permitiram que nossos olhos brilhassem! 

Marcelo é atualmente o enólogo-chefe da Bodegas del Fin del Mundo, além de ter trabalhado na Humberto Canale por doze anos. Mas, fomos conhecer seu projeto solo, para o qual arredondou uma vinícola inativa (Estepa) e utiliza suas instalações para elaborar em família o seu próprio vinho. Sua esposa e um de seus filhos estavam por ali nos acompanhando em uma degustação de 14 vinhos fantásticos.

Bruno Agostini, Marcelo Miras, eu e Marcel Miwa.

O projeto começou com uma produção de 6.000 garrafas em 2011 e hoje produz 30.000 garrafas, uma produção minúscula mesmo se comparado a vinícolas de porte médio. Muito dessa produção é feita com amigos, como se fossem uma cooperativa e para isso compraram um vinhedo com quatro hectares. 

Essa visita merecerá uma coluna só pra ela, porque Marcelo Miras fez meus olhos brilharem com sua simplicidade, seu amor pelos vinhos e seu respeito pela natureza. 

Até a próxima coluna. 

Tim-tim!


O vento deixa suas marcas nas árvores da Patagônia.

Sauvignon blanc da Humberto Canale - quase pronta para a colheita. 

Um ótimo exemplar de Pinot Noir da Humberto Canale.


13 março 2015

Uma cerveja clássica :: Commerzienrat Riegele Privat


- Família: Lager

- Estilo: Munich Helles

- Cervejaria: Brauhaus Riegele - Augsburg - Alemanha

- Teor alcoólico: 5,2%

- Preço: R$ 23.

No dia em que abri essa cerveja eu sinceramente não queria escrever sobre nada. Não queria fotografar, apenas beber, apreciar sem compromissos. Mas, o resultado foi tão bom que resolvi tomar algumas notas e fazer fotos. Depois, ao olhar meus livros de cerveja descobri que ela está na lista das 1001 para se beber antes de morrer. Pronto! Estava explicado porque gostei tanto mesmo não esperando nada.

Ela pertence à família das Lagers, ou seja, de baixa fermentação, resultando em cervejas mais leves, menos encorpadas, mas nem por isso menos interessantes. Da mesma forma  não se pode comparar uma cerveja lager de boa procedência com as "tipo pilsen" comerciais que o brasileiro bebe "estupidamente" gelada.

Essa aqui é do estilo Munich Helles, criado em 1895 numa cervejaria de Munique para rivalizar com as emergentes Pilsen, da Boêmia. Para pertencer a esse estilo a cerveja deve ter sabor predominante do malte, de cor clara e o lúpulo deve dar um leve amargor, mas em equilíbrio. Pode ter entre 4,7 e 5,4% de álcool.

É produzida pela Brauhaus Riegele, cervejaria alemã da cidade de Augsburg, na Bavária. Seu ano de fundação é 1884, pelas mãos de Sebastian Riegele, mas as origens da fábrica remontam a 1386, época em que a cidade era um importante centro comercial europeu. 

A cerveja tem cor dourada, brilhante, com boa espuma. Nos aromas predominam as notas maltadas, lembrando pães, mas o floral do lúpulo aparece também, mas em segundo plano. Na boca é uma cerveja refrescante, com boa cremosidade e personalidade, presença do malte dando corpo e amargor do lúpulo aparecendo em grande equilíbrio. 

Não é um estilo que permita mais amargor que o apresentado, afinal não é uma ale lupulada. Está como deve ser. Final de boa persistência, equilibrado e refrescante.

Servida na temperatura correta (entre 5-7º C), fará boa companhia para petiscos variados, como camarão, lula frita, bolinho de bacalhau, mas também com pratos mais elaborados, como risotos e massas com frutos do mar.


Saúde a todos!

11 março 2015

Divulgação :: Guia Descorchados será lançado dia 23 de março em São Paulo

O crítico Patricio Tapia. Foto: Divulgação

Publicação do crítico Patricio Tapia e da Inner Editora é um instrumento essencial de informação sobre vinhos argentinos, chilenos, uruguaios e, a partir deste ano, dos espumantes brasileiros

Publicação referência no mundo dos vinhos da América do Sul, o Guia Descorchados, do crítico Patricio Tapia, será lançado pela Inner Editora e Eventos no dia 23 de março, em São Paulo. O evento acontece no Restaurante Praça São Lourenço, na Vila Olímpia, reunindo imprensa e produtores em uma grande degustação com a presença confirmada de mais de 60 vinícolas chilenas, argentinas, uruguaias e brasileiras. Profissionais (compradores, importadores, distribuidores, sommeliers) e enófilos também podem participar do evento, que tem vagas limitadas e exige inscrição prévia [ver instruções abaixo]. “É o mais completo guia de vinhos sul-americanos já elaborado”, afirma o publisher da Inner, Christian Burgos.

Em sua 17ª edição, o guia traz notas de degustações, harmonizações, apresentação de vinícolas e regiões produtoras do Chile, da Argentina, do Uruguai e do Brasil. Em 2015, a publicação traz ainda uma novidade: a presença de espumantes brasileiros. Em dezembro de 2014, o principal crítico de vinhos da América Latina, o chileno Patricio Tapia, avaliou os espumantes brasileiros em visita ao Vale dos Vinhedos. “É provável que os espumantes brasileiros ainda sejam desconhecidos pelo mundo. E isto é uma pena. A paisagem da Serra Gaúcha, exuberante e dramática, esconde alguns dos melhores espumantes da América do Sul. Borbulhas que, em muito pouco tempo, tiveram um avanço impressionante”, destaca Tapia, que provou 150 rótulos nacionais.

Com abrangência nacional e periodicidade anual, a publicação da Inner Editora é hoje um instrumento essencial de informação sobre vinhos para consumidores, lojistas e importadores. Com uma tiragem de cinco mil exemplares, o guia traz um resumo das regiões vitivinícolas mais importantes do Chile, Argentina, Brasil e Uruguai. Inclui ainda a pontuação e o ranking dos vinhos selecionados, além de guia de harmonização.

Para sua composição, foram degustados vinhos de mais de 190 vinícolas chilenas, 150 argentinas, 25 uruguaias e 15 brasileiras, resultando em cerca de 3 mil vinhos avaliados por Patricio Tapia. Na edição anterior foram provados 2,5 mil vinhos. Para os amantes do mundo do vinho, o Guia Descorchados estará disponível na loja virtual da Revista Adega (www.lojaadega.com.br) e nas principais livrarias do país, já a partir do final de março. A publicação também estará disponível para compra no evento.

Tapia degustando espumantes brasileiros. Foto: Divulgação

Lançamento do Guia Descorchados

Dia: 23/03

Onde: Restaurante Praça São Lourenço: Rua Casa do Ator, 608 - Vila Olímpia, São Paulo –SP.

- Almoço para a imprensa e enólogos convidados a partir das 12h.

- Degustação aberta das 16h às 22h, reunindo os seguintes produtores: Norton, Tres 14 e Imperfectos, Concha y Toro, Doña Paula, Chakana, Maximo Boschi, Grupo Décima, Mauricio Lorca, Casarena, Vinícola Geisse, Casa Valduga, Miolo, De Martino, Zuccardi, Pizzato, Terranoble, Mais (Tupungato), Caliboro/Erasmo, Trapézio, Santa Rita, Zorzal Wines, Gen Del Alma, Maquis/Calcu, San Pedro, Leyda, Tarapaca, Maitia, Cacique Maravilla, Andes Plateau, Cousiño Macul, JA Jofre, Bodegas RE, Ventisquero, Santa Carolina, La Celia, Catena Zapata, Rep. De Chachingo, Aleanna, Andeluna, Tabalí, Los Toneles, Undurraga, Mais Tupungato, Familia Cassone, Dominio Del Plata e Bouza.

Seguem abaixo os links para participação no lançamento do Guia Descorchados:

- Profissional do Vinho: inscrição gratuita (clique aqui).

- Consumidor final: deve comprar antecipadamente o Guia na loja da revista Adega (clique aqui).

- Dúvidas e outras informações pelo (11) 3876.8200 (ramal 34).

Informações: .Doc Assessoria de Comunicação

08 março 2015

Hoje, tanto quanto nos outros dias do ano, nós (mulheres) merecemos um brinde!

Famosa frase creditada a Lilly Bollinger. Foto: Érika Mesquita

Hoje comemora-se o Dia Internacional da Mulher, data reconhecida em 1977 pela ONU, mas já comemorada desde o início do século XX. Nesse dia fico duplamente feliz por receber os cumprimentos como mulher e também por ser meu aniversário. Então, a coluna de hoje não poderia deixar de homenagear as mulheres e, claro, sua ligação com o mundo do vinho.

Embora ainda seja um mundo muito masculino, porque a maioria das pessoas que trabalham nele são homens, como os enólogos, sommerliers, produtores e críticos, há uma série de exemplos atuais e antigos que podem ser lembrados nessa data para que os feitos de mulheres fortes e empreendedoras não caiam no esquecimento.

Como vocês devem saber, estive na Argentina há algumas semanas para participar de várias atividades, dentre elas as festividades de premiação do Argentina Wine Awards, o mais importante concurso do país. E, para minha alegria, o tema desse ano foi o “O poder da mulher no vinho”, com o corpo de juradas composto exclusivamente por mulheres, dentre elas a britânica Jancis Robinson, a mais influente escritora e crítica de vinhos do mundo.

Foi realmente gratificante perceber o quanto as mulheres têm sido valorizadas e seu papel recebido o merecido destaque pelos que trabalham com o vinho, desde os órgãos da imprensa até proprietários de vinícolas, enólogos etc. 

Mas, esse “empoderamento” da mulher não vem de hoje e está ligado à atuação de grandes mulheres do passado, que atuaram especialmente na região dos vinhos mais charmosos do mundo, Champagne.

A viúva mais famosa do mundo do vinho. Foto: http://en.wikipedia.org/wiki/Veuve_Clicquot

A mais famosa delas foi Nicole-Barbe Ponsardin, mais conhecida como Viúva Clicquot. O champagne elaborado pela maison que ela conduziu já no século XIX é uma marca inconfundível atualmente. Ela herdou a empresa aos 27 anos e foi responsável por uma série de mudanças tanto na comercialização quanto na elaboração do champagne. Foi um funcionário da casa que descobriu uma maneira de deixar o vinho livre de resíduos, método que conhecemos por remuage, que consiste em acumular no bico da garrafa as impurezas da fermentação. 

Outra mulher ligada a uma famosa casa de Champagne foi Jeanne Alexandrine Melin, nascida em 1819, conhecida como Viúva Pommery, responsável por dirigir os negócios em lugar de seu marido. Ela expandiu as exportações para a Inglaterra e para agradar ao paladar de seus novos parceiros de negócios, passou a elaborar champagne brut e brut nature, hoje tão conhecidos. Morreu aos 71 anos vendo o champagne Pommery entre os mais prestigiados do mundo.

Madame Lilly Bollinger com seu meio de transporte favorito. Foto: http://www.007museum.com/

Élisabeth Law de Lauriston-Boubers, mais conhecida como Lilly Bollinger, nasceu em 1899 e faleceu em 1977. Sua ligação com o champagne nasceu quando se casou com Jacques Bollinger e quando ficou viúva em 1941 teve que assumir a direção da casa, onde ficou por trinta anos. Ela foi responsável por lançar espumantes safrados de sua marca e torna-la internacionalmente conhecida. 

Em 1973, a produção do filme “007 Viva e Deixe Morrer” pediu à Moët & Chandon que enviasse algumas garrafas para as filmagens, mas o pedido foi recusado. O então presidente da Bollinger, sucessor de Lily, ofereceu as garrafas para as filmagens e para a estreia do filme, fazendo com que a marca aparecesse regularmente dos filmes do espião inglês e sendo conhecida atualmente como “o champagne de James Bond”.

Um brinde a todas as mulheres!

Tim-tim!

Vinhedos da Bodega Salentein, no Vale de Uco, em Mendoza. Foto: Érika Mesquita


05 março 2015

Se você ainda não conhece os vinhos do Marrocos, comece por esse excelente syrah: Tandem Syrah du Maroc 2010



No ano passado comprei alguns vinhos por mera curiosidade, como um de Israel publicado em janeiro (relembre) e esse tinto do Marrocos. Confesso que comprei sem qualquer informação sobre o produtor, região, nada! Mas, três motivos me levaram à compra: (1) é de um país que ainda não havia aparecido aqui no blog, (2) os países do Mediterrâneo têm influência muito forte da vitivinicultura francesa e (3) vinho elaborado com syrah, uva que dá vinhos muito interessantes se vinificada pelas mãos certas. Pronto, comprei!

O vinho é resultado da parceria entre dois grandes enólogos, Alain Graillot, considerado o "melhor winemaker" de Crozes-Hermitage (sub-região do Rhône, França) e Jacques Poulain, do produtor do vinho, o Domaine des Ouled Thaleb.

As uvas utilizadas são de cultivo orgânico e 60% do vinho passam por barricas de carvalho (francês, certamente). Tem 14,5% de álcool.     

Na taça tem coloração rubi. Já na primeira taça servida uma explosão de aromas, intensos, uma mescla muito elegante da madeira, frutos vermelhos, negros e especiarias. Muita elegância no nariz que se repete em boca: bom corpo, aveludado, denso, taninos macios e boa acidez, deixando o vinho refrescante e pronto para um bom prato. Em boca os frutos negros em equilíbrio com a madeira formam um conjunto complexo e prazeroso. Final longo, dando vontade de mais uma taça.

É daqueles vinhos com boa passagem por madeira, sem que isso seja demérito. Ao contrário, é daqueles casos (infelizmente raros) em que o carvalho acrescenta ao vinho não só os aromas característicos de baunilha, mas complexidade e elegância. Maduro, sem ser enjoativo, até porque a acidez não deixa isso acontecer.   

Confesso que procurei algum senão para o vinho, mas não encontrei. Sem desequilíbrio ou aresta que precise de tempo para ser aparada. Um grande syrah, potente e elegante, até porque não dá pra esquecer que tem 14,5% de álcool.

Vale a pena conferir!


Detalhes da compra:

Esse vinho é importado pela World Wine e vendido em sua loja virtual por R$109. Não é um preço que se pode considerar acessível, mas se você pode/quer gastar esse valor é um vinho que precisa aparecer na sua adega. 

Saúde a todos!