27 maio 2015

Ainda em solo argentino: o autêntico Karim Mussi e sua bodega Altocedro


A receptividade em todos os lugares que visitamos na Argentina foi impressionante. Tudo sempre organizado para nos receber com o melhor da hospitalidade de nossos vizinhos. 

Em nosso primeiro dia na Argentina fomos a Coquimbito, no departamento de Maipú, província de Mendoza, a 1.150 quilômetros da capital Buenos Aires. Ali, Karim Mussi assumiu uma vinícola antiga e montou a Bodega Altocedro, que iniciou a produção dos primeiros vinhos em 2001 e utiliza uvas de seu vinhedo de 5 hectares, localizado em torno das instalações principais, com idades variando entre 15 e 104 anos. 

Karim, proprietário e enólogo chefe da vinícola, tem personalidade muito forte, extremamente simpático e ao mesmo tempo desafiador. Mostra em seus vinhos e em suas palavras que sabe muito bem o que quer, onde quer chegar e não se interessa por produzir vinhos de “modismo”.

Karim Mussi Saffie tem 39 anos de idade e pode ser considerado um enólogo e empresário de vocação e formação. Em 2007 foi reconhecido pelo Conselho Empresário Mendocino com o prêmio Jovens Mendocinos Destacados, na categoria Negócios. Em 2008 o Altocedro Reserva Malbec foi eleito pela revista Wine Spectator como um 100 melhores vinhos do mundo. Segundo o site de sua bodega, Karim é mais que feliz ao falar de política mundial, atualidades, filosofia britânica do século 17 e rock dos anos setenta (The Doors e Led Zeppelin são suas bandas favoritas). 

Quando se refere à elaboração de seus vinhos, fica clara sua paixão e parece “incorporar” um grande alquimista para misturar os cortes, preservando sempre a boa acidez, o frescor e cuidando para que o teor alcoólico não fique tão elevado. 


Iniciamos nossa degustação junto à sua equipe com um torrontés de Salta, um vinho que me impressionou pelos aromas. Sempre espero muita mineralidade nos vinhos dessa região e esse também apresentou muita fruta também, uma lembrança clara de lichia e uma acidez excepcional. Karim nos explicou que a torrontés é colhida em três etapas: mais verde, mais madura e bem madurinha, demonstrando nessa técnica o prazer que tem em ser um “alquimista”. 

Quando fala de seus vinhos Gran Reserva o enólogo diz que prefere que se pareçam com uma “dama elegante” e não com um “macho musculoso”. Conversei bastante com ele e descobri que ele conhece muito bem o Eduardo Valduga, filho do Juarez Valduga, que esteve por lá durante a elaboração do Mundvs Malbec, vinho de DNA argentino que faz parte dessa linha internacional da Casa Valduga. Para a próxima safra, o vinho da vinícola brasileira terá uma personalidade mais próxima dos vinhos da Altocedro. 


Tivemos ainda uma feira organizada para nós, em que degustamos os vinhos da Finca el Origen, Argento, Finca Agostino, Tapiz e Trivento. Foram 3 a 4 vinhos de cada produtor e por ali ficamos para um jantar caloroso ao lado de pessoas apaixonadas pelo que fazem. E fazem muito bem!

Durante o jantar o vinho que me acompanhou foi o Altocedro Año Cero Pinot Noir, da safra 2013, com uvas de La Consulta. Um belíssimo vinho para coroar uma visita harmoniosa e de muito aprendizado. 

Tim-tim!




24 maio 2015

Provamos o elegante Salton Desejo Merlot 2008


No dia 28 de abril foi realizada mais uma edição do Winebar, degustação virtual que acontece via Youtube e recebi três vinhos da tradicional Vinícola Salton para participar do evento. Infelizmente, em razão de atropelos da vida pessoal, não consegui participar ao vivo, mas os comentários sobre minhas impressões estarão aqui aos poucos.


Esse vinho já é um clássico brasileiro. Um 100% Merlot que está entre os tops da vinícola e que é sinônimo da alta qualidade que essa uva pode alcançar no Vale dos Vinhedos. Além disso, é um vinho com um bom preço e que entrega um resultado justíssimo pelo que se paga. Uma das boas compras, sem dúvida, dentre os tintos do Brasil. 

Em sua elaboração o enólogo Lucindo Copat utiliza barricas novas de carvalho, numa composição de 50% francês e 50% norte-americano, onde o vinho permanece por 12 meses. Depois de engarrafado ainda amadurece por, no mínimo, 12 meses nas caves da vinícola, adquirindo complexidade. 

O vinho tem coloração púrpura. Aromas em boa intensidade, elegantes, lembrando frutos negros, amoras e uma madeira muito bem integrada, com seus toques de chocolate, tabaco e café. Na boca é muito equilibrado e sem qualquer desequilíbrio. Macio, com taninos redondos e boa acidez. 

Estilo elegante que lembra um Bordeaux e por isso tem vocação gastronômica. Final persistente, prazeroso, marcado pela fruta em bom conjunto com as notas da madeira. 

Se você gosta de vinhos muito frutados, com notas adocicadas e madeira abundante... esse não é pra você. Mas, se gosta do equilíbrio e da elegância, provavelmente irá gostar. 

Já está com 7 anos de idade e me parece em ótimo momento para ser aberto agora. Ideal para acompanhar queijos maduros, carnes vermelhas e massas com molhos mais estruturados.  


Detalhes da compra
   
Recebi o vinho para degustar na edição do Winebar, mas na loja virtual da vinícola é vendido por R$66 (veja aqui). 

Saúde a todos!



20 maio 2015

Para quem gosta da Tempranillo (ou Tinta de Toro, como queiram): Frontaura Dominio de Valdelacasa Cosecha 2009


Vinhos espanhóis andaram sumidos aqui do blog. Sem nenhuma razão aparente, mas o fato é que o último tinto foi publicado em julho do ano passado (relembre). Então, esse 100% Tinta de Toro, nome pelo qual a Tempranillo é conhecida na região de Toro, foi uma excelente oportunidade para reparar essa ausência de quase um ano.

Toro é uma Denominação de Origem localizada na província de Zamora e faz parte de uma imensa região vinícola, Castilla y León. Banhada pelo rio Duero, foi criada em 1987 e dados de 2010 revelam a existência de 1.312 viticultores na região.  

O vinho é elaborado pela Bodegas Frontaura, que possui 120 hectares dedicados à variedade mais importante da região e a partir da qual elabora quatro vinhos com diferentes passagens por barricas de carvalho francês: Cosecha (6 meses), Crianza (12 meses), Reserva (18 meses) e Selección Especial (20 meses e elaborado a partir de videiras centenárias. Possui no portfólio um vinho branco com a uva Verdejo, que passa 7 meses em carvalho.

Vamos ao vinho de hoje, que como dito acima, tem passagem de 6 meses por barricas de carvalho francês e 13,5% de álcool.

Na taça tem coloração púrpura. Aromas em ótima intensidade: especiarias, madeira, menta, frutos vermelhos e negros, algum tostado e café. Maduro e com alguma complexidade.

Em boca tem bom corpo, volumoso, apresenta madeira bem presente, com destaque para baunilha e notas de coco. Fruta madura também presente, fazendo bom conjunto com a madeira. Sem rusticidade, com taninos macios e aveludados, é daqueles vinhos que agradam com facilidade, sem qualquer agressividade. Acidez mediana e leve presença alcoólica no nariz. Final longo, repetindo tudo, fruta, tabaco e aparecendo algumas notas minerais.

Vinho que está pronto para beber agora, aos seis anos de idade. É daqueles vinhos que vão bem como aperitivo, já que é muito dócil e maduro, mas pode acompanhar comida, desde que não tenha grande acidez. As sugestões do importador são interessantes: filé ao molho de ervas e risoto de presunto parma com brie.


Detalhes da compra:

É importado pela Domno e pode ser encontrado na faixa dos R$ 110-120.

Saúde a todos!



11 maio 2015

A ótima experiência de provar o Pizzato Reserva Cabernet Sauvignon 2005 #desapego


Já que elegi o ano de 2015 como o ano do desapego, de abrir nossos vinhos brasileiros de safras 2005 ou anteriores, temos que dar continuidade à árdua tarefa de apreciar esses caldos que guardamos por tantos anos, com tanto carinho.

O vinho da vez é um cabernet sauvigon da ótima vinícola Pizzato, cuja história familiar e, claro, seus vinhos, tem meu inteiro respeito. Vale a pena relembrar a entrevista que fiz com o Flávio Pizzato, enólogo chefe da vinícola, em fevereiro de 2013 (clique aqui e assista). 

Sempre que for ao Vale dos Vinhedos não deixe de visitar a vinícola, que tem ótimos programas para receber os turistas e, quem sabe, você não dá a sorte de esbarrar com alguém da família para deixar a visita ainda melhor?   

Quanto a esse vinho, adquirido há alguns anos e guardado em adega climatizada, tem coloração púrpura, denso, sem notas de evolução que poderiam caracterizar um vinho de 10 anos de idade. Lágrimas grossas e rápidas na parede da taça. 

Os aromas apresentaram ótima intensidade, com destaque para frutos vermelhos maduros, acompanhados de algo vegetal lembrando musgo, especiarias e terra úmida. Boa complexidade e nenhum defeito ou aroma desagradável, mesmo sem decantar.


Na boca tem corpo médio, incrivelmente vivo e equilibrado. Muita fruta vermelha, boa acidez, taninos finos e elegantes. Madeira muito bem integrada, sem atropelar a fruta. Álcool a 13,3% em equilíbrio. Final longo, prazeroso, dando vontade de experimentar mais um gole. Fruta e especiarias dividindo a atenção e formando belo conjunto. 

O mais surpreendente é que o vinho passaria por outro mais jovem, porque está muito equilibrado, mantendo boa fruta, frescor e estrutura para aguentar mais um tempo de guarda e ainda evoluir. Um senhor vinho brasileiro de 10 anos de idade. 


Detalhes da compra:

Não me recordo o quanto paguei por esse vinho à época da compra, mas a safra atual é vendida em lojas virtuais na faixa dos R$56, o que considero um valor excelente para um vinho que suportou tão bem os dez anos de guarda. Compraria mais garrafas, se as encontrasse por aí...

Saúde a todos!



04 maio 2015

Gosta de vinhos sem passagem por madeira? Se sim, experimente esse Kalfu Kuda Chardonnay Unoaked 2013


A foto não saiu boa, porque estava à noite e com pouca iluminação. Mas, isso felizmente não interfere no resultado da degustação desse chardonnay sem passagem por madeira, com uvas do Vale de Leyda, região chilena bem próxima ao Oceano Pacífico. Por isso, sofre suas influências, garantindo aos vinhos boa acidez e mineralidade. 

É elaborado pela famosa Viña Ventisquero e em seu rótulo duas expressões que remetem à cultura Mapuche, povo indígena da região centro-sul do Chile e do Sudoeste argentino. Em sua língua (mapudungun) a palavra kalfu significa azul, a cor mais importante para esse povo, pois remete à origem vida, à cor do mar. E kuda é o cavalo marinho, cujo nome científico é Hippocampus kuda, considerado símbolo de fortaleza e poder. 

Quanto ao vinho, como dito, não passa por barricas de carvalho, daí a expressão unoaked no rótulo. Por isso preserva todas as características de aromas e sabores da uva, sem interferência da madeira, que pode ser benéfica quando agrega complexidade e corpo ao vinho, por exemplo. 

Na taça tem coloração amarelo palha. Aromas intensos, algo vegetal no início lembrando folha de tomate, o que é um descritor aromático dos vinhos com a sauvignon blanc, mas juro que estava lá, acompanhado de mineralidade e, depois que essa primeira impressão se dissipou, apareceram frutos tropicais, especialmente abacaxi. 

Na boca tem boa untuosidade, grande frescor dado pela acidez e mineralidade bem presente. Frutos marcando presença, com algo cítrico também, parecendo tangerina. Final de boa persistência, frutado, com palato bem mineral. 

Vinho de muita personalidade, mesmo sem a interferência das barricas de carvalho. Aprovado e sem dúvida irá muito bem acompanhando a culinária oriental, mesmo se for mais condimentada. Tem 13% de álcool, sem aparecer em nenhum momento. 


Detalhes da compra:

O vinho é importado pela Domno e aqui em Minas Gerais pode ser encontrado na faixa dos R$85-90, mas pode ser mais barato dependendo da situação tributária do seu estado. Aqui no glorioso estado mineiro os tributos abocanham mais de 50% do valor do vinho. 

Saúde a todos!



23 abril 2015

A Patagônia e a bodega dos dinossauros!


Quando chegamos à vinícola da Família Schroeder, que fica no Vale de San Patrício del Chañar, a 53 km da cidade de Neuquén, fiquei impressionada e maravilhada com a estrutura da bodega, preparada para receber muito bem os turistas e com um maravilhoso restaurante, com uma vista perfeita para os vinhedos. 

O mais interessante ainda estava por vir: ao iniciarmos a visitação nos deparamos com um enorme esqueleto de dinossauro encontrado ali no início da construção da vinícola e preservado com muito cuidado. Os visitantes têm informações a respeito do dinossauro (Panamericansaurus Schroederi), de 75 milhões de anos.     

Os ossos verdadeiros foram retirados e ali foram deixadas réplicas, mostrando como foram encontrados e há muitos painéis contando a história dessa descoberta. 


Neste dia degustamos 21 vinhos e toda a degustação e visita foi acompanhada pela Carolina, uma excelente anfitriã, que inclusive providenciou que a bandeira do Brasil estivesse hasteada em nossa homenagem, uma gentileza que me emocionou. 

Nossa degustação foi dividida por uvas: primeiro degustamos todos os sauvignon blanc, depois os chardonnay, pinot noir, malbec, merlot, cabernet sauvignon, alguns cortes de uvas tintas e finalizamos com espumantes extra brut, nature e um Asti para a sobremesa. Gostei muito dos vinhos sem passagem por madeira, com muita fruta presente, boa acidez e para mim com uma característica gastronômica muito clara. Tenho gostado muito desse tipo de vinho, mais puros, que mostram o quanto nosso paladar muda com o passar dos anos, com a experiência em degustações. Voltamos a gostar do que é mais simples.


Depois dessa degustação fomos para o restaurante Saurus, onde iniciamos com um mimo do chef Sebastian Grimaldi: torradinha integral com creme de truta e um toque de beterraba. A truta patagônica é um dos peixes mais saborosos que já comi. 

A Carolina fez questão que o chef nos oferecesse em pequenas porções um pouco de tudo que o cardápio do restaurante oferece. Para mostrar as entradas: lagostin defumado com creme azedo de abacate, terrine de coelho com pimentões assados, purê de damasco com aioli, polvo marinado, truta confitada com quinoa andina. Estava tudo perfeito, mas a terrine de coelho me conquistou.

Meu prato principal foi um raviolli de truta defumada, apesar de serem oferecidos vários pratos de carne, mas havia prometido que em Neuquén daria preferência sempre aos peixes. Estava perfeito, mas eu e meus colegas de viagem sempre trocávamos uma garfada do prato alheio, para degustarmos um pouco mais da culinária local. 

Na sobremesa novamente um mix de tudo para degustarmos todas as opções do cardápio. Enfim, uma visita imperdível para quem for à Patagônia conhecer seus vinhos. 

Tim-tim!







16 abril 2015

Espumante é coisa de mulherzinha!

Talvez por conta de sua profissão, Nelson mantinha anotações para quase tudo de sua vida particular. Se quisesse saber o nome de todas as suas namoradas – embora não fossem tantas – ou o nome de todos os aeroportos e rodoviárias que visitou bastava consultar seus rabiscos. Sim, embora contador experiente e habituado às planilhas no computador gostava mesmo era dos velhos cadernos de anotações.

Alguém tão metódico mantinha lista de preferências, mas também de abominações. Uma delas continha tudo aquilo que mais odiava em sua profissão, como trabalhar para algumas cooperativas. Sem nenhum motivo aparente, apenas porque detestava aquela fantasiosa organização, onde os menos privilegiados continuavam sem privilégios enquanto alguém colhia os frutos perpetuando-se no poder da associação. Viu muitos casos assim e passou a inventar desculpas para não ter uma cooperativa como novo cliente.

Também estava em sua lista de descrenças as reuniões no horário do almoço. Primeiro porque o tiravam de sua rotina com a família, do momento com os filhos e a esposa. Segundo, porque os clientes gostavam de marcar tais encontros em lugares que não privilegiavam o conforto, como as churrascarias. Vestir roupa social, às vezes terno e gravata, e ir a uma churrascaria conversar sobre negócios não era a mais confortável das atividades. Pior, quando o cliente resolvia pedir um vinho para impressionar o futuro contratado ou algum parceiro de negócios. Aí, o desconforto era elevado à máxima potência na visão de Nelson. 

O último almoço de negócios, marcado para uma churrascaria rodízio, deixou em Nelson a certeza de que esses eventos lhe trazem aborrecimentos antes, durante e depois de acontecerem. É uma daquelas situações que se perpetuam no tempo, com a contribuição generosa de seus clientes. 

A gravata estava um pouco apertada, talvez pelos cinco quilos que Nelson ganhara nas últimas férias com a família. A pressão sanguínea parecia estar lá em cima. A cabeça indicava que iria doer e mesmo com o ar condicionado funcionando bem, o suor escorria pelas costas. Já sem o paletó – que estava na cadeira ao lado coberto por uma toalha manchada que o garçom usou para protegê-lo – Nelson estava preocupado com sua aparência, porque em uma de suas listas estava a regra: “Não tirar o paletó se estiver transpirando muito. Manter a elegância”. Tarde demais!

O provável cliente era proprietário de algumas lojas que compram e vendem veículos usados. Sujeito grande e que falava muito alto, talvez para ser notado, talvez por necessidade de sempre se fazer ouvir durante as barulhentas feiras de automóveis. Nesse dia, porém, parece que queria ser notado pelos que estavam almoçando. 

− Garçom! Sua carta de vinhos! Disse, sem nenhuma delicadeza.

Nesse momento Nelson começou a imaginar o que viria em seguida. Naquele calor um espumante, um vinho branco ou rosé seriam as melhores pedidas, mas isso seria uma exceção, uma grande surpresa. Já estava imaginando: “se pedir um vinho branco vou sair daqui e fazer uma fezinha na loteria. É meu dia de sorte”. Mal pensou e já ouviu: 

− Esse aqui vai muito bem com churrasco. Tinto, 24 meses em barricas de carvalho americano e 14,5% de álcool. É o melhor vinho da carta e o mais caro também! Uma potência! 

Nelson ficou imaginando se seu futuro cliente teria escolhido o vinho porque já o conhecia, se pelo preço ou simplesmente porque era um tinto. Olhou para as mesas ao lado, um tanto aflito, para observar o comportamento das pessoas. Será que todas estavam bebendo tintos? Será que o calor estaria incomodando apenas a ele? Se for, talvez seja hora de ir ao médico, porque pode estar com algum distúrbio hormonal.  

Olhou para sua esquerda e viu uma mesa com duas moças e um rapaz. Aparentavam ter entre trinta e trinta e cinco anos. Estavam felizes e com roupas leves, condizentes com o ambiente e com o termômetro. Ainda quando observava o trio chegou o garçom com um balde de gelo e uma garrafa de espumante. Não deu para ver qual marca ou país, mas escutou o garçom dizendo: “É esse o brut que pediram?” 

− “Sim”, pensou Nelson, “era esse mesmo que eu queria pedir”. E, num raro rompante de sinceridade, virou-se para o cliente pronto para sugerir uma troca, um novo pedido. E começou: 

− Seu Carlos, veja aquela mesa do lado...

− Eu vi. Achei estranho. Aquele sujeito não deve mandar em casa. Espumante é coisa de mulherzinha!

Nelson ouviu atentamente a observação e não ousou discordar, enquanto outra gota de suor escorria pela coluna vertebral, chegando ao ponto do corpo onde a elegância já não fazia mais diferença. 

10 abril 2015

Brasileiro, vivo, maduro e elegante: Casa Valduga Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2004 #desapego


Temos em casa uma quantidade considerável de vinhos brasileiros antigos, devidamente climatizados, esperando para serem abertos agora em 2015, porque decidimos que esse será o ano do desapego!

Não faremos uma degustação de todos os rótulos no mesmo momento, porque queremos aproveitar o máximo de cada garrafa, especialmente os vários merlot da safra 2005.

Para começar abrimos esse cabernet sauvignon da Casa Valduga, de uma linha que já saiu do portfólio da vinícola e, acredito, seja agora representado pelo Villa Lobos, o vinho top de linha que elaboram com essa uva. 

Não tenho como precisar - por falta de informações - o tempo de passagem por barricas de carvalho, mas certamente o vinho estagiou por um período considerável, talvez por 12 meses e ficou, segundo o contra-rótulo, mais oito meses descansando nas caves da vinícola. Tem 14% de álcool. 

Abri o vinho com bastante cuidado, porque com 11 anos de idade a rolha poderia estar comprometida. Mas, não estava, embora já com 1/3 bem encharcada pelo vinho. Não decantamos, para aproveitar os vários momentos do vinho na taça. 

Servido, o vinho tem coloração púrpura, com reflexos granada. Aromas com boa fruta madura, menta e madeira discreta. Na boca tem bom corpo, com taninos finos, mas vivos, e grande acidez. Apresenta estrutura muito equilibrada (taninos + acidez + álcool), mas paladar maduro e com boas notas de evolução, lembrando compota, mel, musgo, terra úmida e algo animal. Complexo!

Final longo, repetindo tudo. Prazeroso, é um vinho que evoluiu bem nesses 11 anos e está bem vivo, agradável, elegante. Como disse, as notas de evolução estão presentes, mas sem deixar o vinho enjoativo ou cansativo. A estrutura me surpreendeu, mantendo a boa capacidade gastronômica.

Ótima experiência e digo que começamos bem nosso "ano do desapego".


Detalhes da compra:

Esse vinho não está mais no portfólio da vinícola e, evidentemente, não me lembro quanto paguei pela garrafa há alguns anos atrás. Mas, considerando que o Villa Lobos é o cabernet sauvignon top da vinícola, podemos arriscar um preço atualizado pouco acima dos R$100. 

Saúde a todos!


26 março 2015

Os vinhos da Patagônia pelas mãos de Marcelo Miras

Bruno Agostini, Marcelo Miras, eu e um dos filhos de Miras, que também trabalha no projeto familiar.

Na última coluna comecei a contar sobre nossa visita à Patagônia, para conhecer os vinhos argentinos do fim do mundo, que assim podem ser chamados não só pela distância considerável que precisamos percorrer para chegar a essa região, mas também porque suas condições climáticas severas nos dão essa sensação. 

Depois de conhecer a Humberto Canale e provar muitos de seus ótimos vinhos, fomos conhecer o projeto familiar do enólogo Marcelo Miras, principal responsável pelos vinhos da famosa Bodega del Fin del Mundo. E, como disse na coluna de domingo passado, fiquei encantada com sua proposta e principalmente com o resultado na taça.

Na conversa que tivemos ele disse que “não pratica enologia” em seus vinhos, não interfere, não usa maquiagem, para que seus vinhos se apresentem de “cara lavada”. Disse, com orgulho, que utiliza o conceito uva + homem = vinho! E, apesar de trabalhar na maior vinícola da Patagônia revela muita simplicidade ao falar de seus vinhos, que elabora com sua família e sem ajuda de nenhum empregado. Ele, sua mulher e um dos filhos nos receberam com muito carinho. São donos e funcionários do projeto. Não tem como não funcionar!

Ao se apresentar deixa claro que não pertence a uma geração de enólogos, mas a duas delas: “dos enólogos mais jovens eu sou o mais velho”. Experiente, mas inovador.  

Saí de lá ainda mais apaixonada pelo mundo do vinho argentino, especialmente por descobrir muitos deles com uma personalidade tão forte, capazes de acabar com aquela ideia simplista de que todos os vinhos são muito parecidos. 

O apaixonante vinho com Trousseau Nouveau, uva um tanto rara na América do Sul.

Basta um gole de algum dos vinhos de Marcelo Miras para percebermos sua identidade própria. Aliás, eles até possuem uma certa “padronização”, se podemos dizer assim, porque todos são elegantes e com acidez bem presente, feitos para acompanharem uma refeição e não somente servir de aperitivo. Dos brancos elaborados com semillon e chardonnay, o seu rosé de malbec, os excelentes tintos de pinot noir, malbec e cabernet franc, todos possuem essas características. 

Provamos 14 vinhos elaborados por sua família e todos são encantadores. São duas linhas, uma jovem, que busca a expressão mais franca das uvas utilizadas, e outra reserva, com passagem do vinho por barricas de carvalho.    

São vinhos sem disfarces, acompanhados de uma delicadeza intrigante. Para mim a frase que define melhor esse produtor é: a riqueza da simplicidade, que deixei escrita a ele com muito carinho. 

Ganhei uma garrafa de um de seus vinhos, o Trousseau Nouveau 2014, que provocou reações emocionadas quando foi degustado na ocasião. Essa uva é conhecida em Portugal como bastardo e na França como gros cabernet. Possui taninos impactantes e grande acidez, mas a degustação desse vinho em casa será um capítulo à parte, que farei questão de relatar por aqui.

Tim-tim!

Os excelentes Pinot Noir, Merlot e Malbec da linha Reserva.

Três ótimos vinhos da linha Joven: Merlot, Malbec e um Blend da safra 2014.

O vinho da esquerda, da linha Reserva, prova que a Cabernet Franc está se tornando uma uva imperdível na Argentina.



23 março 2015

Para acompanhar seu melhor churrasco: De Lucca Reserva Cabernet Sauvignon 2009 #CBE


O tema de março da nossa Confraria Brasileira de Enoblogs - CBE (que deveria ter sido publicado aqui no primeiro dia do mês) foi determinado pelo Victor Beltrami, do blog Balaio do Victor e foi bem interessante: "um vinho varietal tinto ou branco do Uruguai qualquer, menos Tannat."

Infelizmente não consegui encontrar um vinho tão interessante quanto o tema proposto, porque aqui em Uberlândia a oferta de vinhos uruguaios não é grande e o fato de excluir os Tannat já deixou tudo mais difícil. Então, apostei nesse Cabernet Sauvignon já com seis anos de idade, mas que no final das contas não se saiu tão mal. 

É elaborado pela Bodega De Lucca na região de El Colorado, departamento de Canelones. A vinícola tem capacidade para produção 500.000 litros anuais e cerca de 60 hectares de vinhedos próprios. O vinho é rotulado como VCP (Vino de Calidad Preferente), que indica uma produção dentro de certos parâmetros para a região, embora não signifique automaticamente tratar-se de um ótimo vinho. 

O enólogo Reinaldo De Lucca é representante da segunda geração da família a produzir vinhos no Uruguai. Sua origem é o Piemonte, de onde chegaram no início do século XX e estabeleceram os primeiros vinhedos na região. Aprimorou-se com graduações nas universidades de Montevidéu (Uruguai), Penn State University (EUA) e Montpellier (França). 

Esse Cabernet Sauvignon tem 13% de álcool. Na taça a coloração é rubi, com levíssima indicação de evolução nas bordas. Aromas intensos, com muita fruta vermelha, leve tostado, pimenta e algumas notas lembrando geleia, o que pode ser fruto de sua evolução na garrafa. 

Na boca tem bom corpo, taninos ainda rascantes e ótima acidez. Esperava um vinho já mais amaciado pelo tempo, mas ainda demonstra ter estrutura para guarda. Mas, a fruta muito madura e a geleia podem indicar que o vinho esteja, agora, num ponto de equilíbrio que não compense esperar mais para abri-lo. Sabe aquele vinho que pode perder muita fruta se você ficar esperando que seus taninos fiquem mais dóceis? Pois esse é um exemplo. Portanto, me parece estar ótimo para beber agora.

A passagem de 12 meses por barricas de carvalho contribuíram para uma boa complexidade. É um vinho de um estilo mais rústico, que gosto bastante, muito comum em vinhos uruguaios e que, obviamente, pedem um bom pedaço de carne vermelha para acompanhar, se possível os cortes sensacionais de nosso vizinho do sul. 


Detalhes da compra:

O vinho é importado pela Premium Wines, de Belo Horizonte. Não me lembro quanto paguei pela garrafa, pois já está na adega há algum tempo, mas foi algo em torno dos R$65. 

* Esse é o 103º vinho que comento para a CBE, primeira e única confraria virtual brasileira. 

Saúde a todos!