21 março 2012

Não há santos no mercado brasileiro do vinho!


Há um tempo ouvi um especialista em Direito Tributário dizer que o brasileiro é um infeliz, pois é o único cidadão do mundo que é chamado de “contribuinte”. Nos demais países os cidadãos são chamados de “pagadores”. Então, nesse quesito estamos em primeiro lugar, pois somos os infelizes maiores pagadores de impostos do mundo.

Essa infelicidade me atinge a todo instante quando lembro que além de trabalhar quatro meses do ano para contribuir com o Estado brasileiro, ainda tenho que trabalhar outro tanto para pagar plano de saúde, plano odontológico, escola pra minha filha, seguro do imóvel, seguro para o carro, plano de previdência privada... e, agora, querem aumentar os impostos sobre os vinhos importados que bebo.

Sobre essa “salvaguarda” que tanto se discute e já foi tão debatida em outros blogs, quero dizer objetivamente: sou contra qualquer iniciativa para aumentar impostos. Os motivos são os mais variados:

- porque os impostos brasileiros são mal aplicados e não temos contrapartida (lembra da CPMF para a saúde?);

- porque o aumento na tributação dos vinhos importados não resolverá o problema da falta de competitividade do vinho brasileiro (um dos problemas é a carga tributária interna);

- porque tornará mais difícil a importação apenas dos vinhos de outros continentes, porque chilenos, argentinos e uruguaios continuarão entrando no país com alíquota zero e continuarão sendo contrabandeados (alguns até com o selo fiscal que evitaria o contrabando);

- porque acredito que um setor torna-se mais competitivo não quando inviabiliza a concorrência, mas quando resolve primeiro os seus problemas (dentre eles a cadeia de tributos que atinge o setor).

Mas não sou economista, administrador de empresas, especialista em comércio exterior ou qualquer outra coisa do setor. Sou apenas consumidor de vinhos.

E, na condição de expectador dessa briga, noto que há dois lados predominantes: os que defendem os produtores brasileiros e outros que defendem os importadores. Mas, há um dado que parece deixado de lado nessa apaixonada discussão: não há nenhum santo nessa história, nem produtores brasileiros, nem importadores.

Enquanto os primeiros querem ser mais competitivos atrapalhando os segundos, esses aplicam margens de lucro exorbitantes e nos vendem vinhos que podem custar 10 vezes mais que no mercado de origem. Quando publico um vinho europeu no blog, vez ou outra algum amigo de Portugal me envia um email ou comentário dizendo-se assustado com o preço do vinho aqui no Brasil.

Então, minha opinião sobre tudo isso é que a “salvaguarda” é um retrocesso, um caminhar para o passado e estou torcendo para que não seja aprovada. A mobilização nesse sentido está forte e creio que a Secretaria de Comércio Exterior não trabalhe apenas com dados frios, mas também com o impacto negativo que sua decisão pode causar.

Do lado dos importadores que agora começaram a se manifestar publicamente, gostaria de ver nesses textos alguns números, custos, alíquotas dos respectivos tributos, para termos uma ideia do lucro que obtêm em seus vinhos. Um importante importador brasileiro compra um vinho australiano vendido no varejo de lá por US$9 e nos repassa em seu site por US$99,00.

Não há santos, portanto, de nenhum lado.

Como infeliz pagador de impostos, continuo torcendo para que um dia o vinho seja mais barato em nosso país, seja importado, seja nacional.  

Saúde a todos!
 

13 comentários:

Paulo Sales disse...

Excelente post. Disse tudo que eu queria dizer sobre o assunto. Sempre que o governo brasileiro intervém em algum setor é para prejudicar o consumidor final, justamente o elo mais fraco dessa cadeia. E neste caso cria uma baita antipatia pelo produto nacional, que já não tem (em parte injustamente) uma imagem muito positiva.

Anônimo disse...

Vamos deixar de consumir o vinho nacional Nosso boicote pode reverter estas leis. Vamos mostra nossa força.
Vamos deixar de consumir Salton, Miolo e Valduga.

Vinho para Todos disse...

Prezado Anônimo,

tenho lido sobre produtores que teriam apoiado o pedido de salvaguarda. Os textos estão baseados na circular nº 9 da Secretaria de Comércio Exterior. Lá estão mencionados Miolo, Aurora, Aliança, Lovara e Salton.

Mas não há no documento a informação de que eles são apoiadores, mas apenas são tomados como base de informações, já que esses produtores representam, segundo o documento, cerca de 50% da produção do RS.

Temos que ter cuidado em apontar produtores sem ter a certeza de que estão apoiando o pedido.

De toda sorte, estou à procura de mais informações a respeito.

Saúde!

Tiago Cunha disse...

Parabéns pelo post, afinal, é bom ler a opinião de consumidores mais experientes neste mundo do vinho.
Inegavelmente temos uma das maiores cargas tributárias do mundo e, nisso, nosso maravilhoso "vício" está inserido.
Acho lamentável a atitude de alguns produtores e do próprio governo em querer aumentar ainda mais os impostos, mesmo estes já sendo exorbitantes.
Não sou muito experiente no assunto, mas acredito que para se tomar um vinho brasileiro de bastante qualidade, deve-se pagar preços muito mais altos que os importados.
O produtor fala da concorrência desleal, mas não baixa seus preços.
Se o brasileiro quer valorização pelo vinho fabricado aqui, que faça campanhas para tal, baixe os preços ou aumente a qualidade de seus vinhos de entrada.
O governo deveria diminuir os impostos sobre o vinho nacional e não aumentar o dos importados.
Vejo essa atitude como protecionista (na forma negativa da palavra)e incoerente.
Desculpe pelo desabafo em seu post.
Abraço e saúde.

Anônimo disse...

Prezado Gil, boa noite.
Em 1º lugar, quero parabenizá-lo pelo excelente trabalho. Acompanho seu blog desde o início, em que pese a manifestação tão somente agora. Seu blog/site é meu guia desde então, principalmente nas duas vezes que fui ao RS, sendo a última em fevereiro, quando participei da Festa da Vindima realizada pela Casa Valguga, inclusive me hospedando lá e foi SENSACIONAL.
Em relação ao seu texto, reafirmo tudo que foi dito, pois vc sintetizou tudo que nós, meros consumidores medianos, pensa a respeito. Adorei quando vc pede aos importadores para "abrir" a planilha de custos... Não farão nunca.
Não posso perder a oportunidade de comentar o "Sabrage à moda do Cerrado". Era um sonho que realizei na festa da vindima mencionada e, em seguida, pensei em fazer isso com um facão e de repente, ao ver seus posts antigos, me deparo com o que imaginei... Mais um vez, SENSACIONAL. Então pergunto: já repetiu esse tipo de sabrage? Continou dando certo?
Por fim, desejo-lhe muitas degustações, pois, consequentemente, teremos mais posts. Por mera curiosidade, plantei uma muda de uva num vaso e montei uma pequena parreira na varanda do meu apto e ficou muito bacana, e já estou indo para a "4ª colheita".
Sucesso para vc e a Érika.
Ronan

Vinho para Todos disse...

Prezado Ronan, muito obrigado pelo comentário. Como são muitas as observações e todas merecem resposta e agradecimentos, vou enumerá-las:

1. primeiramente, obrigado por seguir o blog há tanto tempo. Como blogueiro amador, isso é impagável.

2. estou certo que os importadores jamais farão isso, mas me causa certa irritação ficarem posando e bons moços, vítimas da tentativa de salvaguarda.

3. quanto à sabragem à moda do cerrado, foi um vídeo bem tosco, experimental. Não era pra ninguém ver, rsrs...

4. no dia seguinte àquele vídeo fiz uma que não deu certo, como um espumante 130. Talvez por ter mais pressão do que espumante que usei, talvez por eu ter colocado mais força que o necessário no facão, a garrafa quebrou-se e fiquei só com metade dela na mão. Me deu medo e não fiz mais. Só farei com o sabre.

5. quando à uva que plantou, achei SENSACIONAL e ainda fiquei com uma pontinha de inveja, mas como dizem por aí, uma "inveja branca". TEnho vontade de fazer isso aqui em casa. Também moramos em apartamento.

É uva americana, certo? Qual variedade? Fiquei curioso.

Obrigado pelos votos. Volte sempre.

Saúde!

Gil Mesquita

Anônimo disse...

Caro Gil, obrigado pela atenção. Acompanhá-lo é um grande aprendizado. A simplicidade e objetividade dos seus textos é um convite à leitura, por isso é que estou seguindo-o sempre.

Em relação a essa nova celeuma, o que não poderá acontecer e ficarmos com produtos ruins para consumir. Isso, nós não queremos.

Quanto ao Sabrage, logo com um 130 não foi dar certo, que azar (gosto muito desse espumante). Bom, pelo menos vc provou que é possível com um facão. Isso tá registrado.

Gil, sua "inveja branca" está sendo muito bem recebida e se vc quiser eu envio algumas fotos, inclusive de como ela está agora, para "matar" sua curiosidade. Meu e-mail: ronan.jmoraes@gmail.com
A uva é a americana mesmo, e te confesso que não sei qual é a variedade, mas acho que é a niágara e se seu apto tiver uma varandinha, pode ter certeza que é possível.

Por fim, temos que torcer para que o fígado fique firme para aguentar muitos vinhos.

Aguardo seu retorno.

Abraço,

Ronan

23:59

Anônimo disse...

Essa sua colocação vale para quase tudo no Brasil, vide o mercado de automóveis, os valores aqui aplicados são os maiores do mundo, muito em razão do lucro exorbitante. Parabens pelo site, o melhor!

Anônimo disse...

Falou tudo que o consumidor comum pensa. Nessa briga perdemos todos nós que já pagamos os mais altos preços pelos vinhos no mundo.
Uma pena que estejamos discutindo aumento de impostos, proteção a produto nacional, encarecimento de vinhos estrangeiros.
Parabéns pelo texto.

Carlos Abel Fernandes/BH

Tiago Cunha disse...

Prezado Gil,

Apenas um adendo que esqueci de fazer no post que escrevi anteriormente.
Pelo que li (mas não tenho 100% de certeza), os vinhos chilenos seriam tributados sim, ficando com tributação zero apenas os argentinos e uruguaios, por estes fazerem parte do mercosul.
O Chile teria um acordo individual com o Brasil, o qual estaria, segundo eles sendo descumprido, caso as salvaguardas entrem em vigor.

Um forte abraço e saúde.

J Pires/C Soares disse...

Mais uma vez, um grande post!Ouvi falar dessa salvaguarda junto de um amigo produtor e exportador de vinho para o Brasil...e fiquei chocado!Se agora os brasileiros já pagam o vinho importado a preços, nalguns casos,ridículos (em comparação com os preços praticados noutros países), como será agora?
Acho que a melhor medida proteccionista não é fechar o mercado mas sim permitir que através da concorrência fazer com que a qualidade dos vinhos nacionais incremente...

Abraço
Carlos

Anônimo disse...

Perfeito.
concordo plenamente com sua opinião

Anônimo disse...

Parabéns!!! Parabéns... INFELIZMENTE não posso me identificar porque faço parte de "um dos lados" mas realmente, não existem santos não... empresas grandes do Brasil querem se aproveitar de uma fatia de mercado deixada por importados, MAS tem importadora lucrando muito...
EU BEBO VINHO BRASILEIRO E IMPORTADO!!! EU SOU CONTRA AUMENTAR IMPOSTO PARA QUALQUER PRODUTO, AINDA MAIS O VINHO!!!
Mas vejam o link abaixo sobre o LUCRO das importadoras no BRASIL!!!
http://www.enoeventos.com.br/201103/compara5/compara5.htm
Nós consumidores estamos pagando por isso...