26 abril 2012

O que deu errado? Casa Venturini Le Bateleur 2008



Quando estivemos na Casa Venturini (relembre) experimentei praticamente todos os vinhos deles e comprei algumas garrafas. Esse CS é o mais básico, da safra 2008, sem passagem por madeira e com garrafa mais simples e barata, embora com uma boa apresentação, tanto que recentemente concorreu na votação pelo Facebook de "vinho brasileiro mais bonito".

Comprei porque gostei do preço e achei que merecia uma análise mais detalhada. Quando estive na vinícola fiz as seguintes anotações sobre esse vinho (já publicadas aqui): 

Não queria desgustar esse vinho. Sem madeira, com mais de 3 anos de idade, garrafa daquelas que se usa em vinhos mais baratos. Mas, fui surpreendido com um vinho leve, bons aromas, equilibrado, muita fruta e somente uma ponta de amargor que incomodou. Boa surpresa. Comprei uma garrafa a R$ 25. 

Essa "pontinha" de amargor junto com um adocicado incomum para um vinho brasileiro mais barato me deixaram intrigado, mas no calor do momento ficaram em segundo plano.

Em casa a degustação revelou um vinho de coloração rubi. Bons aromas, frutos maduros, vegetal, álcool de leve. Na boca tem corpo médio, notas adocicadas bem presentes, fruta compotada, taninos finos e acidez um tanto além da conta. Um certo desequilíbrio nesse aspecto. O final é mediano, com amargor bem presente, o ponto negativo desse vinho. Mas também há muita fruta e boca salivando em razão da acidez.

Não bebemos toda a garrafa porque durante a degustação o adocicado deixou o vinho enjoativo e o amargor bastante acentuado desagradou. Essa característica me fez perguntar a um enólogo as razões que levam um vinho a ter esse amargor.

Ele me respondeu o que está abaixo sem que eu disesse absolutamente nada a respeito do vinho e prefiro não dizer o nome do profissional para evitar qualquer desconforto. Eis a resposta que recebi:

"Sem provar o vinho fica difícil mas te faço alguns comentários das possíveis causas do amargor:

Taninos: vinhos elaborados a partir de uvas com taninos não totalmente maduros (bastante normal na Serra onde se chaptaliza pela falta de maturação das uvas). Estes vinhos são engarrafados sem passagem por madeira (não necessariamente carvalho) que permite a polimerização de alguns tipos de taninos. Após algum tempo de garrafa (pelo menos oito a dez meses) aparece este retrogosto amargo forte.

Madeira: algumas cantinas mais antigas conservam os vinhos em pipas de madeira e uma delas, a grápia, transmite um retrogosto amargo.

Uvas podres: geralmente resultam em vinhos com amargor.

Sulfato de cobre: às vezes (isto é raro) excessos de tratamento com sulfato de cobre próximos à safra podem ocasionar este problema. O amargor é do cobre.

Apostaria na primeira razão. Espero ter podido ajudar".

Saúde a todos!



2 comentários:

Universo dos Vinhos disse...

Olá Gil

Li seu post com atenção - parabéns pela escrita e pela análise detalhada.
Interessante como que às vezes, dependendo do calor da hora, podemos ter uma impressão equivocada ou não tão correta sobre determinado vinho. Nada como uma degustação calma e concentrada no aconchego do lar para analisar todas as características, virtudes, defeitos, etc...
Apesar da minha pouca experiência, creio que realmente a primeira razão apontada pelo enólogo é a mais provável mesmo: CS e Tannat sem passagem por madeira sempre me causaram certa suspeita. Acho que são vinhos demasiados tânicos para serem bebidos só com envelhecimento em garrafa.
Saúde!
Tiago Bulla
www.universodosvinhos.com

Vinho para Todos disse...

Tiago, obrigado pelo comentário.

Preferi perguntar a um enólogo (que vc conhece bem) sobre essa questão do amargor, para evitar qualquer comentário injusto.

Por se tratar de um vinho barato, de uma safra mediana, a chaptalização pode ter ocorrido e com o passar do tempo o amargor se desenvolveu.

Mas gostei bastante do brut deles, do chardonnay 2009 e do tannat. Esses virão em breve no blog, à exceção do tannat que guardarei ainda por algum tempo.

Saúde!

Gil Mesquita
www.vinhoparatodos.com