23 novembro 2012

Para ser observado: Voyeur Carpe Noctem 2008


Para o dicionário Michaelis, voyeur é quem pratica voyeurismo, quem vem a ser a "excitação sexual apenas pela observação de cópula praticada por outros ou pela observação dos órgãos genitais de outrem; mixoscopia.". Cópula? Outrem? Mixoscopia? Isso parece coisa do Machado de Assis, mas é um conceito estampado sem pudores no rótulo de um vinho português.

É que esse tinto da Península de Setúbal é mais um vinho da bem-humorada e competente Wine With Spirit que conheci na última edição do Winebar, que contou com a participação divertida e dinâmica do Marcelo Toledo, da Abflug, entrevistado pelo amigo Daniel Perches.

No rótulo já está determinada a intenção (ou má intenção) do vinho: "à noite despimo-nos de preconceitos e olhamos de outra forma". Seria um vinho apenas para a noite? Seria um vinho diferente que deve ser bebido sem preconceitos? Não! Nada disso. O vinho é moderno, muito bom e pode ser bebido no almoço do domingo, sem pudores.

No contra-rótulo a coisa fica mais séria, psicanaliticamente falando: "Já se sentiu observado? No trânsito, no escritório, pela janela do seu quarto? De certeza que em alguma ocasião alguém tinha os olhos postos em si. Ninguém lhe tocou, mas foi alvo de desejo sem saber. À sua frente tem um objecto de prazer. Olhe bem... não resista à provocação! Toque, sinta, cheire e beba. Não vai ter muitos momentos assim."

Essa é a estratégia de marketing, que se repete em todos os vinhos da vinícola. Mas, vamos ao vinho: é elaborado com três uvas típicas portuguesas, 48% Castelão, 28% Touriga Nacional e 24% Tourica Franca. Tem 13% de álcool e passagem por madeira, mas não sei precisar o tempo. Foram produzidas 10.000 garrafas e abrimos a de nº 02903, gentilmente enviada pela Abflug para a degustação do Winebar.

É um vinho moderno. Na taça a coloração é púrpura. Aromas em profusão, frutos silvestres, groselha, framboesa, azeitona preta, café e especiarias. Notas amadeiradas (cedro) bem presentes, mas sem se sobreporem à ftuta. Boa complexidade.

Na boca é leve, mas com muita fruta e madeira dando toque de complexidade. Taninos finos, boa acidez. Final persistente. Palato com madeira se repetindo, mas sem exageros, escoltando bem a fruta. Pronto para beber agora, aos 4 anos de idade, mas com alguma estrada pela frente, talvez mais 2 anos sem perder as boas características que apresentou hoje.

Saúde a todos!

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