24 dezembro 2012

Os intrépidos vinhos de Goiás

A grande maioria dos leitores desse blog nunca ouviu falar da cidade de Cocalzinho de Goiás. Mas, se você é apreciador de vinhos e está no grupo daqueles desprovidos de preconceitos certamente ouvirá, ou pelo menos ficará bastante curioso.

Cocalzinho é um município goiano com população estimada em 17.800 pessoas (IBGE), localizada no centro-oeste do estado e distante 130 km da capital, Goiânia, e a 110 km de Brasília. É considerado o “portal de entrada do corredor turístico dos Pireneus”, região de ecoturismo marcada pela presença de muitas cachoeiras principalmente na histórica Pirenópolis, vizinha charmosa e que ganhou notoriedade em todo Brasil como cenário de novelas globais.

Foi justamente em Pirenópolis, no último dia 22 de novembro, que encontrei Marcelo de Souza, o responsável pela elaboração dos primeiros vinhos finos do estado de Goiás, provenientes de Cocalzinho, região da Serra dos Pireneus.

Marcelo é médico otorrinolaringologista, capitão da Polícia Militar de Goiás e tem a vida profissional dividida entre Goiânia e Brasília, por isso fixou residência em Pirenópolis e atravessou a serra dos Pireneus para encontrar em Cocalzinho o terroir que considera ideal para seu projeto.

Num bate papo de quase quatro horas obtive muitas informações para transmitir aos leitores do blog, mas também para matar minha curiosidade, já que um vinho fino do Cerrado é algo novo, senão inédito. As iniciativas de que ouvi falar em Goiás são todas destinadas aos vinhos de mesa, elaborados com uvas americanas. Se algum vinho de vitis vinifera foi feito, desconheço.


Marcelo conta que o município de Cocalzinho tem uma altitude média na casa dos 1.100 metros, mas a propriedade adquirida está localizada num vale com altitude menor, em torno dos 900 metros. Lá estão plantados atualmente quatro hectares, conduzidos em espaldeira simples, das variedades Syrah, Tempranillo, Barbera e Sangiovese. As mudas foram adquiridas na Itália e o vinhedo tem condições de chegar a 200 hectares.

A produtividade é muito baixa nessas parcelas, porque tudo é um aprendizado, não havendo histórico técnico para manejo de vitis vinifera no clima de Goiás. Aliás, Marcelo contou que um agrônomo contratado para lhe prestar consultoria deu um conselho um tanto inusitado para alguém que deveria ajudar: “corte tudo”. Não foi essa a decisão do produtor, felizmente.

Perguntado sobre as características climáticas da região, respondeu:

O clima de cerrado tem duas estações bem definidas, uma seca (maio a setembro) e outra chuvosa (novembro a março). No cerrado de altitude, a estação seca goza de temperaturas de verão mediterrâneo, com mais ou menos calor de acordo com a altitude, o que nos diferencia do perfil convencional do clima tropical.

A videira continuamente vegeta no clima tropical, o que faz com que durante um ano tenhamos mais de um ciclo vegetativo. Como conseguimos alongar o ciclo por termos noites frias durante o período seco, neste ciclo produzimos uvas (ciclo de produção), durando no total 7 meses. Nos outros 5 meses, que coincidem com o período chuvoso, apenas deixamos a planta vegetar (ciclo de formação).

Temos, portanto, uma produção de uvas no inverno, que no cerrado de altitude somente há frio noturno. Fala-se que aqui se produz no ciclo invertido, mas não gosto muito deste termo.

Outra particularidade em Goiás é que temos solos muito antigos e intemperizados, portanto, muito pobres. Isso gera potencial para produzirmos vinhos com grande foco e concentração, de acordo com o interesse do produtor.

Marcelo de Souza é um curioso e tem se esforçado para adquirir conhecimentos em agronomia e enologia, mesmo não sendo sua área de formação. Contou no início do projeto com a consultoria de um enólogo, mas ao longo da nossa conversa percebi que todas as decisões e intervenções, do vinhedo à cantina, são de sua responsabilidade. Erros e acertos necessários para adquirir experiência e fazer o vinho que deseja.

Essa condição de autodidata mudará em breve, pois o produtor deseja ir à Califórnia para se tornar enólogo. A escolha dessa região não é por acaso, porque ele é fã assumido dos vinhos californianos e do que eles conseguem fazer por lá, visualizando até uma semelhança climática entre o cerrado goiano e alguns microclimas de lá.


Atualmente a Pireneus Vinhos e Vinhedos produz dois rótulos: o Bandeiras 2010, rotulado como Barbera, mas que leva 85% dessa uva em sua composição, completados com 10% de Tempranillo e 5% Sangiovese, com metade do vinho passando 6 meses por barricas americanas e francesas de segundo uso, depois de serem utilizadas no outro vinho da vinícola. É vendido a R$75 e foram produzidas cerca de 1.500 garrafas. Um vinho que tem recebido boas avaliações em degustações às cegas em Goiânia e Brasília.

O outro rótulo foi o que experimentamos naquela noite, o Intrépido 2010, um 87% Syrah e 13% Tempranillo, com passagem de 70% do vinho por barricas de carvalho francês e americano por 11 meses. Tem incríveis 14,5% de álcool e é vendido por R$65 pela vinícola e foram produzidas aproximadamente 2.500 garrafas. Um vinho de grande estrutura, ainda jovem na minha opinião, e que evoluiu muito na taça durante as mais de três horas de degustação. Um grande passo rumo a vinhos de ótima qualidade no cerrado goiano.

Aliás, esse é o foco principal da vinícola: garantir seu lugar no mercado brasileiro com vinhos longevos e de alta qualidade. Perguntado sobre a elaboração de vinhos mais acessíveis em termos de preço, Marcelo desconversou, dizendo que não tem esse interesse. Seu objetivo é produzir vinhos de guarda, de grande estrutura, não vinhos descontraídos e fáceis de agradar ao público, mas que caiam no esquecimento ao final da garrafa.

Dentro dessa ideologia podemos esperar para os próximos anos um vinho com a Tempranillo, uva pela qual o produtor tem um carinho especial, com a qual elaborou seu primeiro vinho em 2008. Infelizmente esse lote foi apenas para o produtor e seus amigos mais próximos, mas que segundo ele tem se revelado um vinho surpreendente a cada ano.

Os dois vinhos atualmente comercializados são vendidos apenas em lojas e restaurantes, principalmente de Goiânia e Brasília, estabelecimentos onde a vinícola tem focado seus esforços promovendo treinamentos, degustações e encontros de confrarias. A vinícola não tem representantes e por enquanto não pretende ter, vendendo os vinhos diretamente pelo e-mail pireneusvinhos@gmail.com ou fone (62) 8135-4340 ou 9944-3314, com Adriana ou Marcelo

Perguntado sobre os preços de seus vinhos, sobretudo porque um vinho brasileiro nessa faixa de preços normalmente conta com alguma crítica, ele respondeu: “basta alguém me apontar um Syrah de R$ 65 melhor do que o meu”. Pelo que se vê, ousadia e confiança andam juntas nos projetos desse novo produtor. 

Saúde a todos!
 

12 comentários:

Beto Duarte disse...

Muito legal, Gil!!! Deu vontade de provar.
Abraços
Beto Duarte

Gil Mesquita disse...

Obrigado, Beto.

quando tiver oportunidade você precisa provar. Acho que se surpreenderá, principalmente considerando a região produtora.

saúde!

Gil Mesquita

Floripa disse...

Muito bom! Médicos e seus sonhos vinícolas...

Quando foram plantadas as parreiras?

Qual enólogo/consultoria esta por trás desse projeto?

Joao Silva disse...

Alguém pode me explicar como é que ele é capitão da PM, médico (particular) e vinicultor, em três cidades diferentes?

Anônimo disse...

Excelente pergunta...

Anônimo disse...

Simples. Para cuidar da terra ele não precisa estar lá o tempo todo. O restante do tempo ele pode ser médico do serviço militar. E trabalhar 24 horas por semana (inclusive podendo ser à noite ou fim de semana). Sei que para quem é de fora é difícil, mas os médicos trabalham sim nesses horários que a maioria das pessoas acha que é hora de ficar em casa.

Anna Rita Araujo disse...

Estou degustando agora...muito bom e surpreendente!

Paulo disse...

Pode ir stė ate lá visitar e degustar os vinhos?

Paulo disse...

Pode ir stė ate lá visitar e degustar os vinhos?

Paulo disse...

Pode receber pessoas para degustar e conhecer a vinicula?

Unknown disse...

Simples... essa cidade fica exatamente no Meio Do caminho DE Goiânia e Brasília. Vcs sabem como é a escala de um Militar? A escala lhe proporciona sim, ter um consultório particular.
E a vinícola pelo que pude perceber ele é um empresário e não o responsável pela manutenção diária da fazenda.
Logo é totalmente possível exercer as três atividades ao mesmo tempo.

Valcy Moreira disse...

Olha, quem fez esta pergunta deve ser típico do brasileiro vagabundo ou acomodado, pois fazer 3 coisas ao mesmo tempo é muito simples e basta ter vontade de trabalhar e ousar.

Valcy J Moreira