03 fevereiro 2014

Não confunda um vinho que não lhe agradou com um vinho ruim!

Imagem: Devianart

Há algum tempo queria escrever aqui sobre esse tema, porque de forma recorrente percebo certa confusão entre o que seja um vinho ruim e um vinho que não agradou ao gosto pessoal. Vejo isso em comentários postados em lojas virtuais, aqui mesmo no blog e já presenciei cenas em restaurantes.

O sujeito está bebendo um Sangiovese, da Toscana, e escreve nos comentários de uma loja virtual: “Vinho ralo, sem graça. Ácido demais, chega a ser agressivo”.

Outro, num restaurante, pede um Bordeaux para acompanhar as carnes e chama o garçom de volta e diz: “Esse vinho está estragado. Prova aí! Está azedo, amarrando demais”.

Ora, um Sangiovese normalmente tem uma cor mais clara que um tinto chileno, por exemplo. Sua aparência dá ao menos avisado a impressão de que tem pouco corpo, daí utiliza a expressão “ralo” para um vinho que tem bom corpo e em nada lembra um vinho com esse adjetivo. Quanto à acidez, se ela não estiver bem presente não será um Sangiovese, definitivamente.

O sujeito do Bordeaux está tão acostumado a vinhos do Novo Mundo, muito frutados, alguns até adocicados pela presença alcoólica, madeira e taninos, que ao beber esse vinho francês não lhe reconhece as características. Na maioria dos casos um Bordeaux será mais seco que um Malbec da Argentina, por exemplo.

Imagem: Foodista

Dito isso, para não confundir um vinho que não lhe agrada com vinho ruim é preciso saber que:

  • Um vinho é ruim quando teve problemas próprios da vinificação, como amargores excessivos ou sabores atípicos que o tornem difícil de ser consumido. Mas, posso assegurar que mesmo em vinhos mais baratos esses defeitos têm sido minimizados pelos produtores e dificilmente um vinho será ruim nesse aspecto. Pode ser que ele não exploda em aromas, não tenha o equilíbrio de um vinho mais caro, não seja complexo ou sua capacidade de guarda pode ser reduzida. Mas, não será ruim.

  • Um vinho pode estar “estragado”, então a sensação avinagrada ou o gosto de papelão (problema na rolha) indicam que deve ser devolvido. Mas, nesse caso não temos um vinho ruim, mas defeituoso. Qualquer vinho, de qualquer faixa de preços pode vir estragado à nossa mesa ou numa compra em lojas/supermercados.

  • Pra não sermos surpreendidos por uma má escolha num almoço de negócios ou jantar íntimo, devemos experimentar mais vinhos, para que saibamos suas características principais. Se você nunca bebeu determinado vinho é melhor escolher um momento menos importante para experimentá-lo pela primeira vez, evitando constrangimentos.  

  • É sempre muito importante ler a respeito dos vinhos, tirar dúvidas com o Sommelier, ler uma crítica confiável publicada numa revista ou site etc. No mundo dos vinhos as experimentações são o que há de mais interessante e não devemos fugir delas.

Saúde a todos!

6 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom! Considerações muito pertinentes. Geralmente, os equívocos relatados no texto se dão por dois motivos alternativos: pouca litragem ou comodismo de quem não tem curiosidade para conhecer vinhos diferentes.
Eduardo

Anônimo disse...

Excelente. Tenho a mesma impressão que você ao ver os comentários nas lojas. Vinho não deve ser um assunto complicado, mas ler um pouco faz bem. Quando se sabe o que esperar de um vinho, certamente você desfrutará ao máximo de tudo que aquela garrafa tem a oferecer.

Algumas pessoas não entendem (nem procuram entender) a proposta do vinho, e se ele não agrada ao seu gosto pessoal, rotulam o vinho como ruim, aguado, ácido demais, sem personalidade, etc., quando, muitas vezes, o vinho é cheio de tipicidade e qualidade. Fora que aparentemente o único vinho que tem "o direito" de não ser encorpado é Pinot Noir, todo o resto, se não for bem encorpado, é aguado e mal feito.

Vinho não é Skol, nem coca cola. Você pode beber da forma que quiser, claro, mas se quiser aproveitar o melhor que aquele vinho tem a oferecer, ler um pouco ajuda. Isso não quer dizer que o vinho tenha que ser um assunto complicado, ou que alguém tenha que fazer um curso para poder beber. Mas não dá para tratá-lo da mesma forma como se trata um produto industrializado que tem sempre o mesmo gosto. Aí é jogar dinheiro fora...

Le Vin au Blog disse...

Gostei muito do post.
Esses dias mesmo bebemos um vinho que detestei, mas é claro que ele não tinha nada de errado. Claudio gostou.
Pela quantidade de vinhos que bebemos, é bem raro encontrar algo realmente estragado.
Bjs

Maurício disse...

Concordo, com duas ressalvas:

a) Existe vinho ruim sim, esses "reservados" chilenos por exemplo.

b) Existem e não são tão poucos, sommeliers e críticos a serviço do marketing, do negócio, da venda, digo do comércio, independente da qualidade.

Ewertom Cordeiro disse...

Gil,

Muito bom o post!

Uma das situações que você citou era do meu conhecimento, pois já havia lido os comentários em um e-comerce.

Provei os vinhos criticados e com certeza faz parte do gosto pessoal de cada um e da falta de conhecimento como você citou.

A internet é uma boa ferramenta, mas nem toda informação é confiável, a exemplo de algumas opiniões pessoais.

Saúde e bons vinhos!

Abraço.

comprar seguidores brasileiros instagram disse...


Excelente!