27 dezembro 2014

Harmonizando :: vinhos e queijo Camembleu São Vicente (tipo Bleu de Bresse)

Dizem por aí que os franceses criaram esse queijo para rivalizar com a popularidade do italiano gorgonzola.

Há muito tempo esse blog deve atenção especial aos queijos, tão presentes à mesa do brasileiro e sempre relacionados ao vinho. Quem nunca participou (ou quis participar) de uma festa "queijos e vinhos"? E em quantas dessas já não experimentou harmonizações estranhas porque os vinhos normalmente são sempre tintos? 

Consciente dessa falha grave, deixei de lado as inúmeras desculpas e resolvi escrever aqui a respeito do tema. Mas, devo confessar que recebi um empurrãozinho da Laticínios São Vicente, tradicional produtora de queijos do Sul de Minas Gerais, que me enviou alguns de seus produtos para experimentar. Claro, começamos com o mais curioso dos queijos recebidos e que até então não conhecíamos.  

O Camembleu é um queijo tipo Bleu de Bresse, originado na província de Bresse, na França, onde foi desenvolvido na década de 1940. Em sua formulação dois fungos atuam, o Penicillium Roquefortii, presente na massa do queijo, e o Penicillium Candidum, presente na casca do queijo. Com isso forma-se uma curiosa mistura entre a casca assemelhada ao brie e coberta com um mofo branco e o interior é marcado pelos fungos azuis, parecido com o gorgonzola

O resultado final em aromas e sabores também lembra esses dois outros queijos, mas com uma interessante mescla, porque não é tão suave quanto um brie, nem tão intenso quanto um gorgonzola. A textura é bem macia. 

Mas, o assunto principal desse texto é harmonização. Que vinhos cairão bem com um Bleu de Bresse?

Bem. No dia que provamos o queijo estávamos bebendo um vinho branco da uva Viognier, com passagem por madeira. Tínhamos na adega um vinho do Porto, que também entrou na dança, e resolvemos abrir também um vinho colheita tardia (Late Harvest) para experimentar.


Com o vinho branco amadeirado a harmonização foi boa, com o vinho limpando a boca e deixando a lembrança do queijo (fungos), sem uma competição entre ambos, mas também sem provocar suspiros. Se tiver um vinho com essas características não dará errado. 

Com o vinho do Porto a combinação não foi das melhores, porque apesar de lermos sobre essa possibilidade em muitos livros ou sites, o vinho "passou por cima" do queijo, fazendo com que ao final da degustação a lembrança que tínhamos na boca era apenas do vinho. Não foi ruim, mas não repetiria. 

Já com o colheita tardia o resultado foi o melhor, porque além de harmonizar por contraste o doce do vinho com os sabores fúngicos do queijo (especialmente o fungo azul) houve um crescimento, como se na boca fosse criado um terceiro sabor. Isto é, o queijo ficou melhor com o vinho e vice-versa. Foi a melhor escolha das três. 

Logo em seguida testamos outra harmonização acrescentando mel e nozes ao queijo, uma delícia para se comer sem acompanhamento, mas excelente com os vinhos de sobremesa, principalmente o colheita tardia.

E aí você se pergunta: e se tiver um tinto? Não dá pra harmonizar? Sim, mas prefira os tintos mais leves, porque do contrário a força do vinho pode "apagar" os sabores delicados do queijo.

Saúde a todos! 

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom! Eu tb adoro um vinho colheita tardia. Com vários queijos fica realmente uma delícia!