26 fevereiro 2015

Lanternas francesas :: Os vinhos de garagem de Saint Émilion

Jean-Luc Thunevin. Fonte: www.thunevin.com

Saint Émilion, santa ideia! Há quem diga que certos vinhos desta região de Bordeaux são uma excelente transição entre Bordeaux e Bourgogne. Isso se explica pela dominância do merlot, que certo, dá vinhos bem encorpados, porém mais « macios » do que os cabernet sauvignon. 

Saint Émilion (e seus satélites), Pomerol e Fronsac, estão situados na margem direita do rio Dordogne e formam a bela  região do Libournês (cuja cidade principal é Libourne), que por sua vez faz parte do grande vinhedo de Bordeaux. 

Depois de 2 mil anos de história, três séculos de ocupação inglesa (de meados do séc XII a meados do séc XV-  e obrigada a Aliénor d’Aquitaine, dirão os bordeleses!), depois da devastação pela phylloxera na segunda metade do séc XIX, Bordeaux é hoje um enorme paradoxo… e Saint Emilion é o alto-falante desta música! Por que? Aqui nesta terra de Ausone, foi onde começou o movimento vins de garage. E, vins de garage = Jean-Luc Thunevin e sua esposa Murielle Andraud.

Gostando ou não dele, um fato não se pode negar, o espirituoso JL Thunevin e sua parceira escreveram o que foi uma das mais inacreditáveis sagas da região bordelesa. Essa dupla tinha tudo pra não conseguir sobreviver no antro dos « herdeiros » do mundo do vinho de Bordeaux. Eles não saíram de família viticultora; ele, antigo bancário (mas que também já foi lenhador) e ela, auxiliar de enfermagem.  

Sem conseguir evoluir na sua carreira no banco por falta de diploma, um dia ele chuta o pau da barraca, pede  demissão e um ano depois abre uma pequena loja dentro de Saint Émilion, onde vendia de tudo, doces, móveis usados, papelaria, óculos fluorescentes, vendia até cartão postal usado, mas vendia também… vinho. Associando-se em seguida a um amigo, tornou-se dono de um pequeno restaurante, depois de outro restaurante, depois outro…   sempre em Saint Émilion. Daí, foi um pé pra se tornar viticultor pois « quando você vende vinho, chega um momento que você quer produzir o seu vinho ». 

Hoje, proprietário do ilustre Château Valandraud (elevado em 2012 a premier Grand Cru Classé Saint Émilion), além de outros châteaux em  prestigiosas apelações da região, como Pomerol  e Margaux, uma propriedade no Roussillon, além de vários « vinhos de marca », entre os quais, o corajoso Bad Boy, JL Thunevin se tornou o inspirador do movimento vins de garage

E, por que vins de garage? Essa expressão indica os vinhos saídos de pequenas superfícies, onde os trabalhos culturais na vinha e desde a chegada à adega para vinificação, visam pequenos rendimentos, dando um produto bastante concentrado. Mas isso é a explicação bordelesa e moderna! E, de fato, alguns corajosos de renome se lançaram nesta versão. Porém, segundo o próprio Thunevin, a origem dos vinhos de garagem foi pura questão financeira!

Os meios não permitiam a compra de alguns equipamentos básicos pra vinificar. As operações de vinificação aconteciam de forma precária. O cara não tinha bomba pra proceder à remontagem (que é quase uma marca dos Grands Crus de Bordeaux, ao inverso do pigeage que é o mais praticado na Bourgogne), solução: pigeage! Uma das razões pelas quais ele é conhecido por ter introduzido técnicas bourguignones em Bordeaux. Não tinha prensa! Solução: prensa na mão! Enfim… assim, trabalhando com escassos meios é que a partir de 1991 nascia o que se chama hoje de vinhos de garagem, cujo pioneiro foi o Château Valandraud.


Michel Gracia e eu 2010. Foto: Arquivo pessoal

Eu ainda não provei um château Valandraud, mas degustei outro excelente representante da classe, Château Gracia 2000 (Saint Emilion Grand Cru), cujo leque de aromas é marcado pela fruta, amoras, notas suaves de pão torrado, uma boca intensa, redonda, um belo duo de frescor e opulência e um final looonnngo, onde a fruta e especiarias como noz moscada são marcantes. 

Michel Gracia, de origem espanhola, antigo talhador de pedras, faz parte dos agraciados da região que foram herdeiros do seu patrimônio. No início eram 1,34 hectares de videiras herdados de sua madrasta, em plena AOC Saint Émilion. Desde então, a propriedade cresceu de 1 hectare. Sua entrada no movimento vinhos de garagem se deu por sua amizade com JL Thunevin e além de vinho de garagem, Gracia se converteu recentemente em vinho orgânico. Este vinho íntimo, do qual algumas safras não se pode mais encontrar, como é o caso da de 1997, é uma pura joia, muito disputada entre os conhecedores, e que ilustra muito bem um belo produto do terroir… livre.

Mas, em geral, como são os vinhos de garagem? Depende da sua abertura de espírito! Se você é daqueles aiatolás do vinho - pouco importa a tendência - que acham que um bom Bordeaux não pode parecer com nada além de uma alquimia entre líquido e barrica (nova, de preferência), que não pode ser aveludado demais por risco de perder sua « elegância », daqueles  que acham que um bom Bordeaux não pode ser bom quando é jovem, sinal que terá pouca resistência ao tempo… se você é atrelado principalmente a preço e acha que não existe Bordeaux bom por menos de 20€, ou ainda, daqueles da ala do oposto, partidários da nova tendência de que diabolizar Bordeaux é defender o verdadeiro sentido de terroir, que vinho bom é vinho orgânico …  olha, se você é de um desses times, você vai fazer a má propaganda. 

Porém, se você é aquele camarada que assim como valoriza tradições e, como degustador esclarecido e/ou de boa fé, sabe que, justamente, no vinho, o triângulo clima, solo e homem é uma evolução permanente sem por isso anular a alma de um terroir, neste caso, suas asas vão te dar os elementos necessários pra degustar e falar de forma honesta de um vinho de garagem sem… cegueira dos sentidos! 

Então… saúde ! 



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